Na construção de cidades mais inteligentes, quer seguindo uma abordagem mais tecnológica, quer seguindo um modelo mais humanista, será possível garantir que não lhes é tirada a sua essência original?

 

"O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada de novo debaixo do sol." —Eclesiastes 1:9

 

Actualmente, em Portugal e no estrangeiro, as cidades transmitem uma sensação de entusiasmo e renovação, e atribuem uma importância inquestionável a formas de vida mais sustentáveis e inclusivas. Uma nova geração de intervenientes urbanísticos faz experimentações, de forma arrojada, com os princípios das cidades inteligentes e com a criação de espaços e vizinhanças com ambientes pedonais e de usos mista, incluindo espaços públicos e os transportes públicos das proximidades. Nos círculos urbanísticos mais dedicados, em todo o mundo, as infra-estruturas melhoradas para bicicletas e peões superam a dependência do automóvel, há um aumento de locais e aplicações “pop-up”, e outros esforços criativos, como os “parklets” (reaproveitamento de estruturas urbanas como espaços de lazer), que desafiam regularmente as normas convencionais no que respeita ao ordenamento do território urbano e transportes.

Estes intervenientes urbanísticos – residentes, especialistas, empreendedores, profissionais associados e políticos– interessam-se profundamente pela vida na cidade; debatem frequentemente as virtudes do urbanismo de várias formas, incluindo em conversas informais, cada vez mais nas redes sociais, ou recorrendo a formas mais aplicadas de activismo.

Quando me deparo com estes debates esclarecedores e louváveis, geralmente constato que até mesmo as referências mais ambiciosas a desenvolvimentos perto de transportes públicos, ciclovias, características pedonais, gentrificação versus acessibilidade ou alterações climáticas costumam ignorar os fundamentos básicos de um urbanismo autêntico, especialmente tendo em conta a longa história de um país como Portugal. Estes menosprezam indícios importantes proporcionados pelo contexto de fundo da história urbanística, incluindo aspectos não planeados da vida urbana de ocorrência natural e exemplos fundacionais.

Quais seriam as vantagens proporcionadas por uma investigação mais deliberada no que respeita aos princípios fundamentais da história urbanística e da forma urbana orgânica, tanto de Portugal como de outros locais com passados importantes? Compreender os factores subjacentes a um meio urbano aliciante e bem estruturado – um café agradável numa calçada, crianças a brincar em segurança numa ruela – pode contribuir para moldar políticas e esforços de planeamento que mais bem se identifiquem com a cultura e o contexto particulares de um local. Sem um preâmbulo de integridade deste género, restam-nos apenas ideias interessantes, retiradas de um catálogo de opções que estão na moda e são sobejamente aceites por todos.

Talvez, ironicamente, os espaços tradicionais activos e coesos e as interacções humanas espontâneas dos centros históricos constituam agora componentes chave para um futuro urbanístico empolgante. Os debates da actualidade adoptam inadvertidamente abordagens familiares que, durante séculos, deram resultados. No espírito do déjà vu e da amnésia (conceitos combinados pelo actor/escritor americano Steven Wright), os precedentes do passado perduram e convivem implicitamente com princípios fundamentais outrora considerados prontos para serem redescobertos, mas que geralmente foram esquecidos.

Porque não tornar os esforços urbanísticos actuais ainda mais arrojados, ao explicar as suas bases e contextos? Na minha opinião, só atingiremos a evolução mais eficaz das nossas paisagens urbanas se, primeiro, nos desafiarmos a entender totalmente os fundamentos históricos das cidades, localidades e vizinhanças mais bem sucedidas do mundo como algo mais do que moda ou extravagância. Os exemplos bem sucedidos nem sempre são os mais conhecidos, passam despercebidos se não formos observadores interessados e perspicazes.

Este ressurgimento de elementos familiares de locais urbanos históricos não será surpreendente, por conseguinte será prudente estar atento a esta tendência. Uma comunidade bem sucedida é um dos primeiros princípios da condição humana, e, no seu âmago, as populações urbanas celebram invariavelmente ambientes onde possam coexistir em segurança, com um custo de vida acessível, e com uma atmosfera de apoio mútuo. Creio que este tipo de celebração é mais perceptível quando ocorre espontaneamente – sem esforço aparente. Esta experiência espontânea ocorre mais frequentemente em ambientes orgânicos do “Velho Mundo”– tais como as cidades portuguesas – do que em ambientes novos. Esta realidade tem, como premissa, o sucesso do imprevisível, do desarticulado e da sobreposição, por oposição ao normativo ou programado.

Ao repensarmos as abordagens ao planeamento e desenvolvimento urbano, este tipo de locais evoluídos organicamente – no passado e no presente – proporciona exemplos notáveis de como reconfigurar o ambiente urbano de forma autêntica. No entanto, os debates contemporâneos tendem a menosprezar a tensão fundamental que ocorre quando as maravilhas que surgem aleatoriamente provocadas por uma cidade que se transforma naturalmente são substituídas por abordagens programadas ao local, tais como propostas de desenvolvimento banais, iniciativas de ordenamento territorial segundo as tendências, painéis de “cidade inteligente” ou campanhas populistas direccionadas e com orientação temática.

Na verdade, de forma involuntária ou explicitamente, actualmente, os profissionais de criação de espaços públicos (placemaking) geralmente – quer se trate de um pequeno “parklet” ou de uma praça enorme – procuram obter com esforços regulamentados, planeados e programados os resultados que costumavam ocorrer naturalmente e sem intervenções. Jeff Risom e Myra Madiz descreveram de forma aprofundada esse desafio no início de 2018, partilhando o seu trabalho em Buenos Aires, focado nos desafios de restabelecer a ligação entre a vizinhança de Villa 31 e os serviços da cidade, respeitando simultaneamente a “essência” orgânica pré-existente baseada em proximidade, escala, ruas como espaços públicos e flexibilidade arquitetural.

Recordo-me também de observações clássicas do sociólogo Richard Sennett, em The Uses of Disorder, e da interpretação de Rob Goodspeed da obra de Sennett: visões “inteligentes” do desenvolvimento da cidade que, de forma indiscriminada, priorizam a tecnologia (metro ligeiro) ou políticas orientadas para a sustentabilidade (crescimento inteligente junto a transportes públicos ou trabalho) geralmente ignoram a verdadeira história por detrás da “essência” urbanística pretendida – ou seja, que estas formas de desenvolvimento foram o resultado histórico da evolução autêntica de complexidades, factores aleatórios e conflitos ao longo de vastos períodos de tempo. Tal como Daniel Chatman explicou ironicamente, talvez o ambiente pretendido de “desenvolvimento orientado para os transportes” seja mais importante do que os próprios transportes.

À medida que o debate persiste actualmente, a questão entre urbanismo autêntico e urbanismo regulamentado deverá permanecer no centro dos diálogos dos intervenientes urbanísticos e de capacitação. Compreender ao pormenor a história de um local é uma forma de aceder à autenticidade para as soluções propostas actualmente, e permite aumentar a qualidade do activismo urbano local e o alcance da cidadania.

Uma dose saudável de história urbanística é tão essencial e emocionante quanto nostálgica. Em Portugal e noutros países, é essencial que dediquemos o tempo necessário para redescobrir, reinterpretar e reaplicar prudentemente a caligrafia a longo prazo resultante da interacção entre os humanos e o ambiente urbano.

 

 

Este artigo é um excerto do livro Urbanism Without Effort, de Chuck Wolfe. Copyright © 2019 Chuck Wolfe. Reproduzido com a permissão de Island Press, Washington, DC. Adaptado para a Smart Cities pelo autor. Fotos gentilmente cedidas por Chuck Wolfe.