Quando, há cerca de 20 anos, as preocupações ambientais começaram, aos poucos, a ser tema de conversa, estávamos bastante longe de conhecer a fundo a imensidão do problema. No que respeita, particularmente, à área dos resíduos, hoje, percebemos o quão ingénuos éramos quando surgiram os primeiros vidrões e a reciclagem, neste caso, apenas do vidro, dava os primeiros passos.

A criação do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens, que tornou possível a recolha e valorização dos resíduos sólidos urbanos recicláveis, introduziu pela primeira vez a ideia de que um resíduo podia ter valor e que era possível transformá-lo em algo novo possível de reintegrar na cadeia produtiva.

Nesta altura, o termo “economia circular” era ainda uma miragem, mas, de certo modo, a ideia subjacente à circularidade na gestão de resíduos estava lançada.

Hoje, olhando à nossa volta, praticamente tudo o que se pode comprar pode ser valorizado através de diferentes processos de transformação. Dos resíduos de embalagem domésticos, evoluímos para sistemas de gestão específicos que coletam e reciclam pneus, rolhas de cortiça, têxteis, resíduos elétricos e electrónicos, consumíveis, óleos usados, medicamentos, pilhas e acumuladores, veículos em fim de vida, entre muitos outros.

"Há, portanto, que atuar em duas frentes: tornar os sistemas de recolha seletiva de resíduos mais simples, eficazes e próximos das pessoas; e, acima de tudo, inverter a tendência e reduzir a quantidade de lixo que cada português produz (482kg por ano)".

Contudo, e não obstante ser obviamente importante a existência destas soluções a jusante na gestão de resíduos, nunca se atacou a raiz do problema, a montante. Isto é, o consumo e a produção de lixo continuou – e continua - a aumentar, porque, de forma algo ingénua, a existência destes novos destinos para os nossos resíduos alimenta a nossa consciência de bons cidadãos ecológicos.

Não que a reciclagem seja uma má prática, antes pelo contrário. Permite dar novas vidas a resíduos que irão sempre existir, pois somos uma sociedade de consumo. Mas, apesar de criar novas soluções de longe preferíveis ao aterro e à incineração, a reciclagem não pode ser encarada como a única forma de resolver o atual problema de gestão de resíduos que existe em Portugal.

E, tantos anos depois, os números são chocantes. A recolha de lixo indiferenciado ainda atinge valores na ordem dos 83,5% do total de resíduos produzidos por ano. Quanto à reciclagem, estamos longe de atingir a meta dos 50% em 2020, visto que atualmente não vamos além dos 38%. Já a deposição de resíduos em aterro ainda é muito predominante (32%), quando, em 2030, não deveria ultrapassar os 10%.

Há, portanto, que atuar em duas frentes: tornar os sistemas de recolha seletiva de resíduos mais simples, eficazes e próximos das pessoas; e, acima de tudo, inverter a tendência e reduzir a quantidade de lixo que cada português produz (482kg por ano).

Aqui, entra a chamada “política dos 5 Rs”, que veio tornar mais completa a dos 3 Rs, que se ficava por Reduzir, Reutilizar e Reciclar. Com os 5 Rs, passamos a ter uma fase anterior (Recusar) e uma posterior àquelas três (Compostar – sendo que o “R” vem da expressão original em inglês “Rot”).

Ou seja, precisamos de começar verdadeiramente a levar a sério estas cinco regras e aplica-las pela ordem certa, de modo a reduzir naturalmente a produção diária de resíduos. Se encararmos as cinco etapas como uma pirâmide invertida (Refuse, Reduce, Reuse, Recycle, Rot), quanto mais aplicados e eficazes formos em cada fase, menos resíduos “transitam” para as seguintes. Ou seja, quanto mais recusarmos o que não precisamos; quanto mais reduzirmos e reutilizarmos aquilo de que precisamos, menos desperdícios teremos de processar, quer seja pela reciclagem, quer seja pela compostagem.

É preciso reaprender a viver com o essencial, criar novas rotinas de consumo e reeducar a nossa forma de comprar, de forma a eliminar produtos e embalagens supérfluas e/ou descartáveis na nossa vida.

 

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.