Conciliar a crescente urbanização com a nova era digital é, para Fernanda Rollo, um dos principais desafios que as cidades têm pela frente. A secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior presidiu, ontem, à sessão “Cidade Cidadã”, que decorreu no âmbito do Portugal Smart Cities Summit, e falou à Smart Cities sobre o papel que a comunidade do conhecimento deve ter na construção de um futuro inteligente, mas que não esquece a herança e legado históricos.

 

Como encara a ideia de “cidade inteligente”?

Não tenho a mais pequena dúvida de que é preciso olharmos para as cidades com um olhar actualizado e crítico no sentido de construção de futuro. O conceito de smart cities pretende condensar um encontro de duas revoluções em curso e que têm um lastro histórico incrível. Por um lado, o que está a acontecer na era digital, com a inovação, o Big Data, etc. Tudo isso está, evidentemente, a transformar o mundo de uma forma imensurável e, quer queiramos, quer não, que entra nas nossas casas e condicionará a vida de todos nós. E condicionará, absolutamente, aquilo que é o perfil da cidade do presente e do futuro, perspectivando não só as cidades que vivem de forma diferente, mas obrigando a repensar as cidades que temos, readaptando-as. Por outro lado, a outra revolução que se cruza com a digital é que, em 2050, espera-se que haja um aumento de 2,5 mil milhões de pessoas nas cidades. Isto significa que cerca de 60% das áreas urbanas que vão existir em 2050 ainda não existe agora, com uma distribuição geográfica à escala planetária diferente – muitas delas serão na Ásia e em África. As outras cidades do mundo inteiro vão ter de se adaptar a estas profundas alterações.

Que implicações estão a ter essas mudanças?

Neste cruzamento de revoluções, as exigências ao nível do ambiente, da natureza, das infra-estruturas alteram-se profundamente. Como é que as infra-estruturas urbanas se vão adaptar a este séc. XXI e ao futuro, garantindo uma série de exigências sociais e para o planeta, a sustentabilidade do ambiente e o bem-estar das pessoas? Isto vai significar uma leitura renovada de tudo o que tem a ver com as infra-estruturas. Para além disso, as pessoas já são diferentes. Estamos a falar de uma população que é muito diversificada, e, nalguns países, o desafio passa já por acompanhar o envelhecimento da população, com níveis de cultura geral mais elevados e que é arrastada para um mundo diferente, digital e virtual. Uma coisa nós sabemos: hoje, temos muito mais informação. Produzimos mais informação nos últimos dois anos do que alguma vez se produziu no mundo inteiro. Como combinamos tudo isto é o grande desafio que se coloca sobre as cidades.

E como o podemos fazer, tirando partido desses dados?

Vamos precisar de mais Ciência para lidar com esta quantidade de informação. Isso precisa de reflexão, de planeamento. A herança do passado faz salientar a importância do património, que devemos respeitar, enquadrar e valorizar. As cidades históricas e todo o contexto que herdamos têm de ser reequacionados no presente e preservados, valorizados, embora também saibamos que, muitas vezes, o planeamento é tutelado pela própria realidade. Este momento de construção do futuro requer esta reflexão. O conceito de smart cities, contando com uma extensão imensurável de dados, tem de ser mastigado, pensado. Isso tem de ser feito, porque ter muita informação não significa ter muito conhecimento.

É possível conciliar estas duas forças?

Esse é o esforço. Como conciliamos estes dois movimentos profundamente transformadores – da era digital e da revolução urbana – ao mesmo tempo que respeitamos princípios cada vez mais preponderantes ao nível do bem-estar das pessoas, da sustentabilidade, dos comportamentos. E temos também uma sociedade que requer uma participação diferente. Os cidadãos já querem ser parte actuante na definição dos desenhos das políticas públicas. São cidadãos não só no sentido de fruir do espaço da cidade, mas querem ser construtores, abrindo o universo imenso da ciência cidadã e participada. O próprio governo da cidade tem de ajustar a esta pressão social e interesse das pessoas.

Há ainda trabalho a fazer na forma como os portugueses exercem a sua cidadania?

Temos de trabalhar em todas as áreas. Os cidadãos devem ter um papel informado e compete também à comunidade do conhecimento preocupar-se com isso. Um dos grandes desafios na área da Ciência tem a ver com a relação com a sociedade e estamos a assistir a uma alteração profunda no paradigma da própria produção de conhecimento. Já não é só a comunidade científica que produz conhecimento e fá-lo não só para, mas com a sociedade em cenários de compreensão e de participação. Estes cidadãos passam a ser parte do conhecimento que deve informar o desenho das políticas públicas e das cidades inteligentes. A comunidade do conhecimento deve também partilhar as suas reflexões e devolver à sociedade aquilo que é o investimento e confiança que a sociedade deposita nela.

Já encurtámos a distância entre a academia e o cidadão?

Estamos a fazê-lo cada vez mais, pois essa distância não pode existir. A pressão no sentido de derrubar os muros é enorme. Ao nível das cidades, isso é muito interessante, porque é a própria configuração da cidade e da universidade ou politécnico que se está a transformar, com vista a estes envolvimento e entrosamento cada vez mais naturais, como se fosse uma ágora aberta de conhecimento, na qual a sociedade tem de entrar na universidade e a universidade tem de sair para a rua. Não só é uma partilha de espaço físico, mas uma alteração dos campi universitários que está em causa, do ponto de vista urbanístico e físico. Muitas cidades do nosso país são marcadas pela presença desta comunidade do conhecimento e que tende a ser cada vez mais um actor decisivo naquilo que é a vida das populações. A academia será parte disso e tem de reajustar as suas práticas de aprendizagem e métodos de convívio. São mudanças muito transformadoras e persistentes.

As instituições de Ensino Superior estão a ter um papel fundamental na dinamização dos territórios.

Se olharmos para a distribuição geográfica das nossas instituições de Ensino Superior, em particular os politécnicos, é fácil depreender como, de facto, estas instituições têm tido um papel decisivo e sido actores fundamentais na dinamização dos territórios e um contribuinte incrível para tudo o que tem a ver com a coesão social e territorial. Os desafios do futuro, a começar pelos empregos, precisam de mais competências. A grande aposta é cada vez mais centrada nos recursos humanos e, aí, temos um imenso trabalho a fazer que não depende só de nós, mas da sociedade como um todo. Precisamos de profissionais mais qualificados e, para termos estas pessoas a habitar estes contextos, elas têm de ter mais competências, de ser cidadãos activos e contribuintes responsáveis. Num mundo em que se perspectiva que mais de 50% dos empregos como os conhecemos hoje irá mudar, temos a certeza de que serão exigidas mais competências. Precisamos formar e qualificar as nossas pessoas. Ainda estamos aquém do que era desejável, apesar do caminho que temos feito absolutamente excepcional no que diz respeito ao desenvolvimento da formação, investigação e Ensino Superior. Ao olharmos para o nosso país, vemos que, em cada três jovens em idade de frequentar o Ensino Superior, apenas um o está a fazer. Os recursos humanos mais qualificados são vitais para ajudar na construção de um país com mais sustentabilidade e sintonizado, coeso e solidário, na criação de mais bem-estar para todos.

 

"Os cidadãos já querem ser parte actuante na definição dos desenhos das políticas públicas. São cidadãos não só no sentido de fruir do espaço da cidade, mas querem ser construtores, abrindo o universo imenso da ciência cidadã e participada".

As novas tecnologias ajudam nessa disseminação do conhecimento, mas não poderão acartar também o risco de excluir?

A exclusão é provocada pelo [não] acesso às tecnologias. A acção das políticas públicas, centrais e locais, em particular das autarquias, tem de ser também cada vez mais envolvida neste contexto, numa lógica de co-responsabilização. Uma das grandes preocupações tem a ver com esse alargamento e esforço de inclusão nas áreas do conhecimento que procuram uma maior literacia digital e consciência destas lógicas também por parte do cidadão. Há um esforço cada vez maior para a inclusão digital, até porque todos estamos a ser obrigados, em todos os nossos quotidianos, a recorrer a competências digitais. Todos este contexto de serviços públicos está cada vez mais ligado e, se não cuidarmos, essa distância pode acontecer.

Como Portugal está a abordar este tema?

Temos um programa muito transversal na área das competências digitais em que uma das preocupações tem a ver não só com a formação e capacitação dos jovens e recursos humanos, mas também com a inclusão digital de faixas etárias mais elevadas. Se isso não for feito, a exclusão é absolutamente violenta num mundo digital que nos entra dentro de casa e para o qual estamos constantemente a ser chamados. Temos de nos preparar para acompanhar esta era digital voraz, no respeito daquilo que é o facto de sermos seres humanos e querermos uma sociedade com mais bem-estar. O objectivo de tudo isto é fazer as pessoas mais felizes.

E, neste sentido, a ideia de cidade inteligente, mais tecnológica, não assusta?

Temos de olhar para estes desafios de forma positiva e naquilo que exige reflexão. Tento ter uma perspectiva generosa, optimista e construtiva. Percebemos que os desafios são imensos e há momentos na História em que parece que tudo isto se densifica, cruza e cria estas vertigens. É o que está a acontecer aqui, com uma sociedade que tenta criar contextos de urbanização muito acelerados, universais e persistentes numa era digital, na qual a Ciência tem de ter um papel positivo. O melhor que há a fazer é estudar, observar e tentar encontrar e discutir o que devem ser estas cidades do futuro. Não sei se vão ser mais ou menos espertas, mas o que se pretende com smart cities é criar um contexto urbano que seja mais favorável e mais harmonioso, que tenha em consideração um conjunto de valores e princípios com os quais não nos devemos distrair.

Já vivemos momentos semelhantes na História?

Estamos no Centenário da Primeira Guerra [Mundial] e estas coisas começam a surgir de forma muito natural. Veja-se o conflito entre a cidade que tem de ser abastecida pelo campo e um campo que se sente penalizado perante isso. Qual a resposta que a Ciência deve dar a isto e para [orientar] as políticas públicas? Não é difícil imaginar o esforço que está colocado aqui, quando se pensa como abastecer estas cidades, quer do ponto de vista da sustentabilidade, quer do respeito pelo ambiente e pelos contextos não urbanos. Também temos de renovar a nossa perspectiva perante isto. Quando falamos na urbanização, não podemos olhar para as cidades de acordo com os preconceitos e ideias que temos de cidade. Nos contextos mais rurais, é preciso criar as ofertas e os serviços de urbanização na medida em que as pessoas precisam de ter ali aquilo de que necessitam para viver lá e viver bem. Por isso, para mim, quando se fala de smart cities, é com a ideia positiva de que temos de pensar nas tendências e garantir que conseguimos antecipar o que aí vem. Aqui, os papéis da Ciência e Tecnologia são decisivos, porque a obrigação da Investigação é ter esta capacidade de antecipar e, com as políticas públicas, fazer um planeamento justo, adequado e sereno. Tudo isto para não deixar acontecer como no passado, em que as cidades nos ultrapassaram. Temos cada vez mais a obrigação de prever, antecipar e ser inteligentes na forma como vamos encarar este futuro.

 

 

Temos já essa capacidade para antecipar num paradigma orientado para a sustentabilidade?

Temos, ou, se não, temos a obrigação de identificar os contextos em que é preciso promover mais investigação, garantir mais informação ao cidadão. A sociedade e todos estes conceitos estão cada vez mais sujeitos a um escrutínio público, que é desejável e necessário, e, no mínimo, temos obrigação de pensar sobre isto e oferecer o conhecimento para perspectivar e identificar estes problemas.

Que áreas colocam mais desafios?

Por exemplo, a construção de edifícios inteligentes, os recursos para isso, o fornecimento alimentar, os transportes, o fornecimento de energia... Um elemento que costuma ser esquecido é a água e que não pode só funcionar a pensar no abastecimento urbano. Nestas matérias, há também este desequilíbrio. Têm de ser pensadas de forma a não pôr em causa a sustentabilidade do país. Tem de haver um diálogo entre o espaço urbano, a lógica da cidade, e todos os contextos circundantes... Não esquecer de que a cidade tem de ser um contexto harmonioso com o território. Temos desafios imensos num clima de incerteza enorme, determinado pela imensurabilidade das alterações climáticas e de muitas outras alterações também, como os acidentes, a poluição do ar, a mobilidade... Perspectivar uma cidade do futuro ou a adaptação da do presente, com as previsões demográficas, se não formos inteligentes nestas opções, está tudo estragado.

 

"Muitas cidades do nosso país são marcadas pela presença desta comunidade do conhecimento e que tende a ser cada vez mais um actor decisivo naquilo que é a vida das populações. A academia será parte disso e tem de reajustar as suas práticas de aprendizagem e métodos de convívio. São mudanças muito transformadoras e persistentes".

Como é que o Governo está a ajudar na resposta a estes desafios?

Nas áreas da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, temos várias agendas de investigação que estamos a estimular. O nosso país tem hoje uma comunidade científica e académica muito dinâmica, actuante e internacionalizada e todos estes desafios estão a ser discutidos. Para além disso, temos várias políticas em curso e agendas que estão concretamente preocupadas com estes tópicos. Tudo o que tem a ver com a lógica da partilha de informação e da relação com a sociedade, compondo a Agenda Nacional da Ciência Aberta. Na própria configuração das instituições de Ensino Superior, o esforço de modernização é um caminho muito claro. A internacionalização e a capacidade de diálogo e contribuição da comunidade nestas áreas são outras dinâmicas e, depois, [existem] as agendas científicas concretas, nas quais há uma aposta muito explícita em tudo o que tem a ver com as energias renováveis, com as cidades, questões da sustentabilidade e incluindo as questões do património, que não podem ser diminuídas. Há que salvaguardar este legado e valorizá-lo, principalmente num país como o nosso, em que se colocam questões vitais como o turismo sustentável.

Essa é uma questão que preocupa a Ciência, Tecnologia e Ensino Superior?

Somos um país que forma muito bem pessoas na área do Turismo, e, também por isso, temos estes resultados. Mas, do ponto de vista da Investigação, estamos muito preocupados sobre como garantir um turismo sustentável. Como é que as cidades que são grandes foques de atracção turística garantem contextos adequados às pessoas? Até onde podemos ir? Como podemos convidar as pessoas a visitar o resto do território? Toda esta agenda do território, que, para nós, é vital, pretende atenuar estas assimetrias violentas que existem no nosso país, procurando a promoção da coesão social e territorial. Estamos muito preocupados em contribuir para estes desafios, nos quais a Ciência tem de estar cada vez mais presente.

A “febre” tecnológica das smart cities pode ameaçar a identidade e herança histórica das cidades?

Mais uma vez, o problema vai estar na forma como usamos a tecnologia. Enquanto não conseguirmos fazer aquilo que é a cultura científica, patrimonial, de respeito pelo património histórico, as tecnologias podem ser mal usadas. Se tivermos, de facto, uma infra-estrutura tecnológica que tenha capacidade de valorizar e ser o veículo que transporta o conhecimento sobre a cidade e a sua identidade e características e que as preserve e valorize, o contributo pode ser incrível. E não é preciso esta pressão para perceber isso, basta olhar para o nosso país. Os conteúdos que associamos [às tecnologias] devem, de facto, ter respeito por essa identidade e pela valorização do património e legado históricos. Isso acontece tanto no passado com a televisão e como amanhã com a rádio ou amanhã com a Internet of Things... [As tecnologias] São apenas ferramentas. O risco é de estas se tornarem num fim em si mesmo, e não como ferramentas utilizadas por pessoas, contribuindo para o seu bem-estar e transportando conhecimento informado, útil e que tenha também a capacidade de valorizar e contribuir para a nossa identidade nacional, quer no contexto do nosso território, quer para espalharmos o nosso património, a nossa língua e a identidade nacional pelo mundo inteiro. Essa é uma oportunidade imensa.