Quando falamos de “tecnologia ao serviço do ambiente”, provavelmente a última coisa em que pensamos é em embalagens. No entanto, o tema da sustentabilidade na embalagem tem vindo a ganhar uma importância cada vez maior nas nossas vidas.

Infelizmente, pelas razões erradas, as embalagens tornaram-se o centro de um movimento antiplástico e antitudo o que não é “bio” ou “amigo do ambiente”. Digo infelizmente, porque o problema, mais do que os materiais usados, é o nosso comportamento enquanto consumidores. Se houvesse uma educação e uma sensibilização do consumidor (de todos nós), não teríamos taxas de reciclagem de plástico de apenas 30%. Teríamos, sim, uma economia circular e não estaríamos agora a lamentarmo-nos sobre os efeitos da nossa vaidade e frivolidade no ambiente.

Mas se este movimento trouxe alguma coisa de bom, tal foi o acelerar da investigação e do desenvolvimento de novos materiais, e o voltar a materiais mais tradicionais com novos designs. Muitos dos novos materiais estavam nos laboratórios à espera de um impulso para poderem sair para o mundo real e muitas empresas receberam fortes investimentos para acelerar a massificação/industrialização dos materiais e processos de fabrico.

Ainda temos um longo percurso pela frente até podermos depender apenas de materiais verdadeiramente amigos do ambiente, mas é precisamente por isso que temos de repensar a embalagem como algo que faz parte do produto e que tem como função a sua proteção. Devemos largar a vaidade e a necessidade de propaganda que nos leva a ocupar mais espaço do que o estritamente necessário e a gastar material de que não precisamos, olhando para toda a cadeia de valor desde a origem da matéria prima da embalagem até ao seu transporte, utilização nos processos de manufatura/transformação e toda a sua jornada até ao cliente final, incluindo o seu descartar. Não podemos ser ingénuos e acreditar que a embalagem no final não é lixo, seja ela do tipo que for. Ou continuar a acreditar que tudo o que compramos pode ser livre de embalagem ou ter embalagem retornável ao fabricante/produtor. Nem todo o consumo pode ser local, nem todos os bens de consumo podem vir sem embalagem. Não podemos aplicar falsos remédios a tudo, ou estaremos a correr o risco de sermos considerados hipócritas, vendedores da “banha da cobra”, charlatões dos tempos modernos. Temos, antes, de incentivar os investigadores a saírem dos seus laboratórios e a virem para o mundo real da indústria para que entendam as necessidades e os desafios, e trabalhar para encontrar e/ou desenvolver materiais mais amigos do ambiente e que possam, de facto, ser usados no mundo real.

Temos de tornar a embalagem inteligente: dotá-la de sensores que ajudem os produtores/fabricantes a otimizar a proteção do produto (ex.: se o produto esteve sob diferentes condições de temperatura, humidade ou agentes externos), usando apenas o material necessário, que prolongue a vida dos perecíveis (como alimentos) ou que nos indique se o produto ainda pode ser consumido, eliminando o conceito do “consumir de preferência antes de” sem com isso comprometer a confiança e as expectativas dos consumidores. Precisamos de embalagens que ajudem a otimizar os processos de transporte e logística por forma a reduzir a pegada de CO2. O futuro passa também por inserir marcadores para o uso da realidade aumentada e com isso fazer marketing do produto, sem que seja necessário lutar pela visibilidade na prateleira através do tamanho da embalagem.

Não há qualquer dúvida de que temos um grande desafio pela frente, desde a educação para o consumo, à implementação de materiais amigos do ambiente e à otimização da cadeia, mas com o contributo de todos é certo que seremos bem-sucedidos. Todos temos um papel a cumprir neste caminho: os consumidores, porque seja qual for a solução implementada, precisam repensar a necessidade da embalagem, promovendo a redução, a reutilização e a reciclagem (nesta ordem); os investigadores que devem encontrar materiais com pouco ou nenhum impacto ambiental, que não afetem a cadeia alimentar ou alterem os modelos de colheita e agricultura – um equilíbrio difícil, mas necessário a uma escala global, porque não queremos o transporte desnecessário de matérias primas só porque uma determinada solução não está disponível num determinado mercado, ou seja,é fundamental  encontrar materiais adequados à economia global, onde um produto pode ser enviado para um país nórdico e para um país tropical, onde as condições de temperatura e humidade são muito diferentes e afetam a embalagem e a qualidade final do produto). Depois, e ainda nesta lista, seguem-se os desenvolvedores de embalagem, cuja responsabilidade passa por encontrar soluções otimizadas de proteção e trabalhar com as equipas de marketing com o objetivo de em conjunto encontrarem formas alternativas de potenciar os produtos, incorporar soluções mais amigas do ambiente, desafiar os dogmas e o status quo das soluções atuais e voltar a princípios e materiais básicos – a economia circular não é um conceito moderno, basta olhar para história do leiteiro (milkman)! Este é um modelo onde as palavras durável, reutilizável e reciclável são uma oportunidade e um imperativo.

O desafio é enorme e transversal a toda a sociedade – consumidores, empresas, investigadores -, o caminho é longo e muito há para ser feito, mas o futuro terá de passar por aqui. Porque a evolução tecnológica também serve para isso, para recuperar princípios básicos do passado, dotando-lhes de uma maior inteligência e adaptando-os às necessidades e exigências do presente e do futuro.

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.