A internet estará em todas as coisas. Desde os telemóveis aos automóveis, passando pelos dispositivos médicos, o tamanho dos objectos que nos ligam, e que se ligam, tem diminuído e a sua abrangência aumentado.

Com a promessa do IoT (internet of things), tudo ficará conectado. Mas num mundo cheio de coisas, que conexões serão críticas para construir cidades saudáveis?

Vejamos: atualmente, a esperança média de vida dos portugueses ultrapassa os 80 anos, sendo mais elevada do que a média da União Europeia, e o número de pessoas com mais de 75 anos é superior a um milhão. Viver mais anos é uma conquista, mas viver melhor é um desafio, especialmente para quem lida diariamente com a saúde dos outros.

O contexto demográfico marcado pelo envelhecimento da população tem reflexos no estado da Saúde, com destaque para o aumento significativo de doenças crónicas e as pessoas com múltiplas patologias que exigem uma complexidade de cuidados inquestionável.

A inatividade física, as comorbilidades crónicas e a solidão ameaçam a Saúde dos cidadãos. Isto impõe-se como um desafio relevante para as cidades que aspiram tornar-se sustentáveis. Cidades, mais do que urbanizações, são comunidades e redes de suporte. Como pode a Saúde conectar-se melhor entre si, mas também com os municípios, as ONGs e as pequenas comunidades para melhorar a qualidade de vida dos seus residentes, dando resposta aos desafios supracitados?

"Com a promessa do IoT (internet of things), tudo ficará conectado. Mas num mundo cheio de coisas, que conexões serão críticas para construir cidades saudáveis?".

  1. Garantir a melhoria contínua da Saúde informando os profissionais da melhor evidência científica

A produção científica vive tempos áureos e as certezas do ponto de vista científico são cada vez mais. No entanto, os profissionais de Saúde queixam-se do tempo dedicado aos utentes cada mais espartilhado e da falta de tempo para formação.

Para prestar o melhor cuidado possível aos doentes, os hospitais precisam de manter o corpo clínico motivado, qualificado, atualizado relativamente às melhores práticas da medicina baseada na evidência científica. Treinar as equipas de forma contínua, com qualidade e escala, mas, simultaneamente, tendo em conta as necessidades específicas de cada profissional, é muitas vezes um enorme desafio para as instituições de saúde, considerando que este processo envolve uma enorme dedicação de tempo e recursos.

A tecnologia é, sem dúvida, uma janela de oportunidades neste cenário, com tanto mais eficácia e relevância, quanto mais sinergias tiver com as equipas em Saúde - o agente de melhoria e também o repositório de conhecimento e competências.

  1. Tornar públicas as atividades comunitárias.

Como sabemos, o sedentarismo é característico da sociedade do século XXI e é potenciado pelo envelhecimento e solidão. Aqui, as dinâmicas comunitárias, promovidas ou não por entidades formais, geram atividades que podem suprir a necessidade de atividade física de várias faixas etárias. No entanto, muitas delas permanecem ocultas aos residentes e, mesmo, aos profissionais de saúde.

A par da promessa da telemedicina, com uma monitorização quase-constante, mas suscetível aos perigos da excessiva medicalização, já previstos na prevenção quaternária, os cidadãos devem estar ligados às atividades saudáveis que estão ao seu alcance. Ligados à Saúde e não à gestão da doença.

  1. Reforçar as políticas de dados abertos.

O volume de informação produzida diariamente cresce exponencialmente e a sua fonte é cada vez mais o próprio cidadão. A utilização secundária da informação, devidamente legislada, deve, pois, privilegiar o interesse do cidadão sem comprometerw a investigação científica motor do progresso.

Hoje, os Sistemas de Saúde não são unos e o cidadão é livre para escolher.

Assim, a informação para facilitar a escolha deve estar disponível de forma transparente - normalizada e on-demand - para que o cidadão possa navegar na Saúde informado, seja qual for a entidade prestadora (pública, privada, municipal, social, não-governamental, etc).

  1. Quebrar silos com referenciação intersetorial.

Com o conhecimento partilhado sobre as atividades comunitárias, geram-se inúmeras oportunidades para as iniciativas intersetoriais. Os médicos, particularmente de medicina geral e familiar, são mentores de uma vida saudável centrada na capacitação do utente.

Os médicos podem prescrever mais do que fármacos. Estamos perante a oportunidade para criar protocolos de referenciação integrados com iniciativas comunitárias - municipais, formais ou informais - com vista a atingir objectivos baseados em evidência científica com o suporte social que as cidades, inerentemente, possuem.

Sozinha, a tecnologia nada fará para melhorar este cenário, mas acreditamos que terá um papel fundamental na formação da Saúde e na integração da Saúde nas cidades.

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.