Desde o final do ano passado, o mercado nacional das smart cities tem um novo player. A  Vodafone arrancou com uma oferta “chave-na-mão”, com soluções machine-to-machine (M2M) para estacionamento, controlo de semáforos, recolha de resíduos e eficiência energética inteligentes. Sofia Mendes, Head of Corporate and Public Sector da Vodafone Portugal, revela a estratégia da operadora para Portugal.

 

Qual o posicionamento da Vodafone no mercado das cidades inteligentes?

Em termos de operadores de telecomunicações, somos o operador com maior expressão na área do M2M. Temos cerca de 32 milhões de cartões no mundo inteiro nas mais diversas soluções – desde os carros da BMW aos Kindle da Amazon. Isso posiciona-nos como um player que tem a escala de conseguir ter soluções mais abrangentes, quer em termos de condições, quer de desenvolvimentos tecnológicos, mas também por ter uma visão sobre outros mercados. Dentro do M2M, decidimos avançar para a área das smart cities, com uma oferta que vai ao encontro dos desafios que, neste momento, as entidades sentem.

Enquanto fornecedor, que desafios encontram neste mercado?

Por um lado, “há pouco dinheiro”, que é o desafio de base, e, por outro, nem sempre é fácil escolher as melhores plataformas e soluções. Há uma grande diversidade de tecnologias no mercado. Temos também o desafio da própria venda das soluções aos municípios a nível interno. O tipo de investimentos de que estamos a falar tem de ser aprovado ao mais alto nível e convencer e vender internamente que alguns destes projectos têm os benefícios referidos, em termos de poupanças energéticas, de cumprimento de objectivos ambientais, de melhoria da qualidade de vida, nem sempre é fácil e temos sentido esse como um dos principais problemas. Mas, fruto da experiência de outros mercados, temos um conjunto de casos onde conseguimos tornar real o benefício e isso ajuda bastante.

Ainda há desconhecimento?

Sim. Fala-se muito, e apesar de haver já alguns casos e de Portugal ter alguns municípios que estão muito avançados, a verdade é que não há assim tantas soluções reais e devidamente controladas que demonstrem quais os custos antes e depois. Acabamos sempre por bater na barreira à mudança, porque muitas destas soluções implicam uma transformação em termos de organização que nem sempre é bem recebida.

Têm sentido isso junto dos clientes?

No almoço que tivemos no IDC Directions 2015 com um conjunto de municípios e outras entidades, foi interessante perceber que todos acham que este é o caminho, não têm dúvida absolutamente nenhuma, e porquê? Porque há cada vez mais pessoas a viver nas cidades e os recursos não são mais, são menos. Ou conseguimos usá-los de forma eficiente ou, a médio prazo, vai ser um problema grave. Todos os municípios foram unânimes em dizer que isto é uma inevitabilidade. A questão não é “se” vamos fazer smart cities, mas “quando”.

O investimento é a principal preocupação dos municípios?

O Portugal 2020 pode ser uma oportunidade para muitas destas entidades se candidatarem a alguns fundos. Mas o feedback que recebemos é que o principal desafio é a uniformização de soluções e, aí, como operadores, temos um papel a desempenhar.

Como?

Se vivo em Cascais e utilizo, por exemplo, uma solução de gestão de tráfego, quando passo para Oeiras, desaparece tudo? Um operador como a Vodafone pode ajudar com soluções que, na prática, acabam por ser transversais. Ao conseguir ter vários municípios a usá-las, podemos criar esta continuidade.

Isso ainda não existe no mercado nacional?

Muitas das soluções para smart cities não são apresentadas como uma oferta completa. Estas são tipicamente compostas pelos equipamentos, a questão da conectividade – onde entra o operador –, as aplicações e a forma como interagimos com as soluções e é recolhida a informação, e a componente dos dados. Quando as entidades vão ao mercado não encontram isto neste formato. Encontram empresas que fazem a parte inicial e uma parte aplicacional, da interface, mas não fazem Big Data, e vice-versa. E, como se não bastasse, muitas destas soluções não têm o nível de segurança que se pretende, porque, para todos os efeitos, trata-se de informação crítica.

Como pode a Vodafone fazer a diferença?

Vemo-nos como um player tecnológico que consegue oferecer, de A-Z, uma solução que começa no equipamento, passa pela conectividade, pelo software e analytics, garantindo os níveis de segurança e protecção de dados que são naturais para nós, como operador. Na prática, somos um enabler, alguém que pode juntar tudo isto e dar como solução chave-na-mão aos clientes finais. Não vamos ser especialistas em, por exemplo, recolha de resíduos. O nosso core business é ser um agregador e uma plataforma que chega aos clientes com serviços de qualidade globais.

Como a vossa oferta responde às necessidades das entidades nacionais?

Analisámos o mercado português, percebemos as tendências e a procura – embora, ao olhar para fora, não haja muitas diferenças – e têm muito a ver com a redução de custos e com o cumprimento de metas ambientais. Com este primeiro set, pretendemos ir ao encontro das necessidades mais prementes dos municípios. A nossa expectativa é a de que, com o tempo, possamos alargar a oferta a mais módulos.

Como é que as vossas soluções têm em conta o cidadão?

Estes projectos fazem sentido numa lógica de utilização racional de recursos mas também para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Ter uma componente para o utente final é uma preocupação que temos na escolha e desenvolvimento das soluções. Para o município não é só o beneficio financeiro, mas é algo que podem comunicar para os seus munícipes como serviços que a Câmara está a dar. Isso é uma mais-valia.

Qual a estratégia para Portugal?

Estamos a interagir com um conjunto de municípios, nos quais queremos avançar com pilotos. A metodologia acaba por ser encontrar a necessidade, um sítio onde se implementa a solução, a monitorização, antes e depois, e, com base nisso, criar o business case para tudo o resto que se pretende fazer nesse município. Essa é a melhor forma para ganhar a confiança e recolher os tais dados importantes para dizer ‘nessa solução, o investimento é tal e o benefício é y, por isso faz sentido avançarmos nesse caminho’. Neste momento, temos um conjunto de pilotos a correr, nalguns deles ainda não avançámos para decisões definitivas, mas o feedback dos municípios com quem temos estado a trabalhar é muito positivo e estão bastante entusiasmados.

Que municípios?

Temos trabalhado com a Lourinhã, que está bastante vocacionada para este tipo de soluções. Temos vários contactos a avançar. Gostaríamos de ter um ou dois municípios nos quais fizéssemos uma maior abrangência das soluções, até para servir de caso para todos os outros.

Quais as expectativas para o mercado português?

Esta não vai ser ainda uma área que vai crescer ao ponto de suplantar as outras que temos no M2M. Mas temos a expectativa de que, a um ano, vai ser mais fácil implementar soluções mais pequenas e em municípios mais pequenos. Os números grandes só virão com os municípios grandes...

Mas poderá acontecer a médio prazo?

Sim, esta área vai ganhar tracção. No próximo ano, esta ainda há-de ser uma área não relevante em termos de facturação no M2M, mas com bom potencial. Não tenho dúvida de que, em dois ou três anos, vai igualar aquilo que temos hoje com grandes números. Estamos a tentar posicionar-nos bem para, nessa altura, termos uma boa implementação.