Com quase 21 milhões de visitantes em 2017, Portugal caiu nas boas graças do mundo como destino turístico. As cidades estão atentas à oportunidade, mas sabem que com o aumento das receitas económicas, surgem também outros desafios que é preciso controlar. As novas tecnologias não são a única solução, mas fazem parte da resposta e o seu contributo pode ser fundamental.

Férias – a palavra é música para os ouvidos. Todos anseiam pela chegada daqueles dias em que é possível descansar, desfrutar da natureza, do património, descobrir novos destinos e, simplesmente, sentir o ritmo do dia-a-dia abrandar. Até lá, planeia-se. Onde ir, onde ficar, o que visitar, o que comer... São tantas as possibilidades! E não é preciso estar de férias ou à procura de descanso para vestir a “roupa” de turista – há quem o faça porque vai visitar amigos ou familiares, por motivos religiosos, por questões de saúde, ou, até, por razões profissionais. Independentemente da motivação, procura-se uma experiência única e o mais confortável possível. Para isso, o viajante pode contar hoje com um forte aliado: a tecnologia.

A importância das soluções tecnológicas no sector foi já reconhecida pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) e, este ano, o Dia Mundial do Turismo, que se assinala a 27 de Setembro, foi dedicado à temática, com enfoque nos contributos que Big Data, a inteligência artificial e as plataformas digitais podem trazer para a sustentabilidade do turismo. Para a UNWTO, os avanços e inovações nas tecnologias digitais são parte da solução para o desafio de conciliar o crescimento com um turismo cada vez mais sustentável e responsável.

Do lado do utilizador, o impacto do uso das novas tecnologias digitais, seja nas zonas mais rurais, seja em ambiente citadino, é cada vez maior, basta ver como plataformas de economia da partilha (ou de intermediação), como Airbnb, transformaram as experiências turísticas. O acesso à Internet tornou-se numa necessidade básica de quem viaja, e uma panóplia de apps, mupis interactivos, dispositivos de realidade aumentada, realidade virtual, inteligência artificial, etc., passaram a ser os guias particulares, orientando e ajudando o visitante a tirar o melhor partido do destino escolhido. “Hoje, existem soluções para todos os gostos no mercado das aplicações e sistemas tecnológicos e, com eles, ganham os habitantes locais e os turistas. Toda a riqueza de um território poderá chegar até si, sem que tenha de fazer um grande esforço, basta descarregar uma app, ligar o Bluetooth e deixar-se levar pela história de um país, cidade ou vila”, descreve Paulo Fitas, operations manager da Mobinteg, empresa portuguesa que desenvolveu a app SMIITY, distinguida com o prémio Melhor App Turística no FITUR 2018.

Mas não são apenas os utilizadores que ganham com estas novas aplicações. Para os territórios que se querem assumir como destinos inteligentes, a tecnologia não é a resposta absoluta, mas o seu uso pode ser determinante para maximizar a actividade e receita turísticas, optimizar a gestão dos recursos e ainda desbloquear potenciais escondidos.

milhões de euros estão disponíveis no âmbito do programa Turismo Fundos para operações de investimento imobiliário em territórios de baixa densidade, com vista a dinamizar o investimento e a criação de emprego.

Dados para uma melhor gestão

O turismo é um dos sectores mais importantes da economia mundial. Em 2017, o “vai e vem” de visitantes representou, segundo a UNWTO, 10% do PIB mundial, cerca de 1,400 mil milhões de dólares em exportações e era responsável por um em cada dez postos de trabalho. Em Portugal, o turismo é uma “galinha dos ovos de ouro” e tem sido determinante para a retoma económica do país, contribuindo, em 2016, para 9% do PIB nacional. No ano passado, as receitas com a actividade turística no país cresceram 16,6% face a 2016, alcançando os 3,39 mil milhões de euros, aponta o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Enquanto destino, a reputação nacional não podia estar melhor: este ano, o país foi eleito, pela segunda vez consecutiva, como o melhor destino turístico europeu pelos World Travel Awards, com a capital portuguesa a arrecadar o título de “Melhor Destino Citadino da Europa”. Porém, nem tudo são rosas e muito se tem debatido sobre os efeitos do excesso de turistas, em particular nas principais cidades do país. O excesso de lotação, a pressão sobre as infra-estruturas, a subida dos preços da habitação, a gentrificação ou a descaracterização da cidade são algumas das questões que surgem a par dos números gordos das receitas. Como fazer frente a isto? “Com dados”, afirma, de forma peremptória, Manel Sanromà, que participou, entre 2011 e 2015, na estratégia digital de Barcelona, uma das cidades que mais se tem debatido com o problema (ver aqui). “Cada pessoa e cada turista é um fornecedor de dados e temos de aproveitar isso”, acrescenta.

Para Miguel de Castro Neto, subdirector da NOVA Information Management School (IMS), na qual dirige o programa de pós-graduação em smart cities, a resposta está também nos dados, mais concretamente, na analítica urbana. Consoante as características de cada território e à medida que estes vão desenvolvendo uma estratégia smart city, “assente na sua identidade e construída de forma inclusiva”, a “cidade como plataforma” vai ganhando contornos. Nesta fase, refere o especialista, utilizam-se as soluções tecnológicas mais adequadas ao território em questão, tirando partido dos dados gerados e recolhidos. A partir daí, será necessário “construir uma inteligência analítica capaz de transformar esses dados em informação e conduzir a acção dos responsáveis pelo planeamento e gestão do turismo”.

O que quer isto dizer? Um exemplo prático: “numa abordagem de cidade como plataforma, o município possui um portal de open data, no qual as empresas que desenvolvem aplicações obtêm os dados sobre a agenda cultural da cidade, sendo, assim, capazes de informar o turista de que, na próxima sexta-feira, ao final da tarde, vai realizar-se um mercado ao ar livre na praça central. Paralelamente, o sistema de informação de gestão da agenda cultural está interligado com os restantes sistemas da cidade e, quando chegarmos a sexta-feira, ao anoitecer, o sistema de iluminação pública da cidade vai ajustar a intensidade luminosa em alta durante o período de realização do mercado, os serviços de higiene urbana serão automaticamente reforçados, a actuação preventiva da polícia municipal assegurada e assim sucessivamente”.

Ora, ao disponibilizar informação nas várias fases da visita, quer na antecipação, quer durante, o visitante vai usufruir de uma experiência mais completa e interactiva com o que existe no local e imediações. Já do outro lado, é possível gerir a pressão turística, em tempo real e em função do conhecimento que se possui, criar novas oportunidades de negócio e de marketing para os serviços e comércio local e, ainda, utilizar estas aplicações para melhorar planeamento e gestão da oferta/procura do território. “Efectivamente, caso a cidade ou vila tenha desenvolvido uma estratégia de smart city que conduziu a um modelo integrado e interoperável de sistemas e dados, estaremos capazes de ir mais longe e promover uma abordagem integrada e verdadeiramente inteligente do turismo, na medida em que conseguimos alcançar não apenas os benefícios anteriores, mas também garantir que a gestão dos serviços e infra-estruturas da cidade respondem de forma eficiente e em tempo real quer às populações residentes, quer às dinâmicas do turismo. Assim, a cidade ajusta automaticamente os seus transportes, os serviços de higiene urbana, segurança, etc., em função da distribuição espacial do turismo e das características dos turistas que a cada momento visitam a cidade”, descreve.

A existência de uma estratégia municipal é condição fundamental para isto, mas, quando se fala de dados, inevitavelmente, há um alarme que soa no que se refere à segurança e privacidade. Perante o “enorme potencial de criação de valor” destes dados, o especialista em analítica urbana admite que é necessário “criar mecanismos que assegurem um uso eticamente responsável dos dados pessoais”, mas que estes “não devem tolher o empreendedorismo e a inovação”. Desde Maio, com a entrada em vigor do Regulamento Geral da Protecção de Dados, foi criada a “possibilidade de utilização de dados se devidamente anonimizados, permitindo conciliar estes dois interesses”. Todavia, o docente receia que este seja ainda olhado numa “lógica de compliance” e não como uma oportunidade para “um verdadeiro exercício de reengenharia dos modelos de gestão de informação”.

Aproveitar a oportunidade

A promoção do turismo é um desígnio nacional e o sector das cidades inteligentes pode beneficiar disto. A ligação entre os dois é vista com bons olhos pelo ministério da Economia. “Se as pessoas estão on-line, ofertas podem ser feitas, podem receber informação sobre o hotel, o edifício, etc. E, com as partilhas nas redes sociais, as pessoas passam a ser agentes de promoção óptimos”, disse o agora ex-ministro Manuel Caldeira Cabral, em Maio, durante a Semana da Economia de Braga, apontando os esforços feitos para levar o Wi-Fi aos centros históricos que alcança já 80 cidades. Todavia, a conectividade continua a ser uma das barreiras que é preciso ultrapassar e que é apontada pela Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) como a próxima grande prioridade para a construção de cidades inteligentes. A urgência é partilhada por Miguel de Castro Neto, que sublinha também a possibilidade tirar daí proveitos: “As redes de acesso à Internet geridas pelas autarquias são muitas vezes visto como um custo, mas podem potenciar a criação de novos modelos de geração de receitas, pois os dados gerados pela sua utilização têm um valor inquestionável para compreender, em tempo real, o metabolismo da cidade, com benefícios que extravasam largamente o contexto do turismo e potenciam a criação de oportunidades de negócio para a economia local”.

A nível nacional, a estratégia reflecte-se também no apoio ao ecossistema de inovação, com diversos programas destinados às start-ups e empreendedores. Em 2017, por exemplo, foi lançado o Centro de Inovação do Turismo, no âmbito do programa Turismo 4.0, cujo objectivo passa pela promoção de “serviços de aceleração e incubação de start-ups em articulação com a rede de incubadoras, bem como a identificação das tendências internacionais de inovação no turismo, apoiando a promoção internacional da inovação feita em Portugal”, e capacitando as empresas ao nível da inovação e economia digital. Mas há muitos mais e basta consultar o portefólio de entidades como a Startup Lisboa para perceber que o turismo é um sector de eleição para os empreendedores.

Nesta matéria, uma das grandes promessas é a adopção de políticas de dados abertos, como acontece já em Lisboa, Cascais e Oeiras. “[Estas] Permitem não apenas assegurar uma maior transparência e envolvimento dos cidadãos, mas especialmente potenciar o desenvolvimento económico alicerçado em inovação e empreendedorismo alavancado pela análise em tempo real dos dados da cidade”, explica o subdirector da NOVA IMS.

Do turismo selvagem ao turismo inteligente

Pode a tecnologia ser a resposta para os problemas do excesso de turismo? Os efeitos negativos do turismo são, para Castro Neto, “uma consequência da incapacidade dos territórios de optimizarem os modelos de planeamento e gestão do turismo, nomeadamente tirando partido das tecnologias disponíveis”, havendo, por isso, “longo caminho a percorrer” ao nível da governação territorial. “Muitos autarcas assumem responsabilidades por situações que escapam ao seu controlo, uma vez que existe, no nosso país, um claro excesso de instituições a tutelar interesses sectoriais e uma reconhecida incapacidade para promover soluções colaborativas e partilhadas”, considera. Apesar do inegável potencial e contributo que os dados podem dar para a construção de um modelo de gestão e planeamento de turismo inteligente e sustentável, é preciso lembrar que a tecnologia não pode ser encarada como a derradeira resposta a todos os desafios que o turismo impõe, devendo estar enquadrada numa estratégia mais abrangente, capaz de potenciar os recursos de um território, preservando a sua identidade e capacidade de carga, ao mesmo tempo que impulsiona a co-criação entre os vários actores, desde a autoridade municipal, ao visitante, passando pelo promotor turístico e pelos residentes locais.

“A tecnologia é um meio e não um fim”, refere Castro Neto, “o verdadeiro segredo para o sucesso é existirem valores identitários nos nossos municípios que funcionam como as fundações para a construção deste turismo inteligente e quem conhece o território nacional tem perfeita consciência de que temos uma riqueza absolutamente excepcional de valores que tornam cada município único e capaz de criar uma oferta distintiva e de elevada qualidade, tirante partido das suas características culturais, gastronómicas, naturais, industriais, etc.” .