A Deloitte Portugal organizou, em finais de Maio, o Mayors’ Summit, trazendo 50 autarcas internacionais a Portugal. Para Miguel Eiras Antunes, recentemente nomeado Global Smart Cities Leader da Deloitte, Portugal deve começar a posicionar-se como um exemplo a nível global e tem todos os argumentos para o fazer.

É agora Global Smart Cities Leader da Deloitte. No que consiste a nova função?
A Deloitte está presente em mais de 150 países e territórios com mais de 286 mil pessoas e elegeu o tema do futuro das cidades como uma das áreas de aposta. Vou ter a responsabilidade de desenvolver o negócio na área das cidades, nos cargos smart cities e autarquias/governos locais. Ou seja, vou tratar de cidades, quer elas sejam inteligentes, quer não, e isto à escala mundial. É essa a minha missão, que é uma missão engraçada.

Vai levar os exemplos e experiência das cidades portuguesas?
Sem dúvida. Portugal é um living lab ao qual a Deloitte Global tem estado muito atenta. Somos reconhecidos pelas características favoráveis no ecossistema de mobilidade e smart cities, por um lado, e pelo conhecimento e desenvolvimento de novos conceitos e soluções tecnológicas nesta área, por outro. A equipa da Deloitte Portugal destaca-se na nossa rede global pelo seu know-how específico e pela internacionalização da sua oferta nesta área. Temos as condições certas e a dimensão certa para fazer as coisas bem para que possam depois ser escaladas. Eu funcionarei, digamos que, como um agregador no universo Deloitte.

No que consiste o vosso trabalho?
As smart cities são uma aposta recente para a Deloitte e que está alinhada com uma aposta internacional. Temos trabalhado com Cascais no desenvolvimento do ecossistema, de forma muito completa e na qual há até um investimento da Deloitte Global. Temos trabalhado bastante na área de visioning, ou seja, o que é que pode vir a ser o ecossistema de Cascais 2030. Outra área em que temos vindo a trabalhar cada vez mais é o funding and financing.

O que estão a fazer em Cascais?
É um trabalho 360. Acabamos por estar um pouco no meio, tentar facilitar pontes entre todos para que todos ganhem com isso, o município e o cidadão também. Estivemos também envolvidos na definição e desenho da plataforma de gestão da cidade, assim como em estratégias de atracção de investimento. Em Cascais, temos um envolvimento bastante transversal e numa perspectiva de co-investimento também, o que se deve ao facto de termos achado que Cascais tinha as características indicadas para ser um exemplo à escala global e que é usado como um living lab à escala global.

E para além de Cascais?
Temos estado em colaborações diversas com outros municípios em tudo o que diz respeito a estratégias 2030. Uma das coisas que falta à gestão municipal é [definir] o que aquela cidade deve ser no futuro, qual é a proposta de valor para o cidadão e o que deve fazer-se em cada um dos domínios.

A duração do mandato dos autarcas é curta para uma visão desse tipo.
Sim, e nós ajudamos. São iniciativas relativamente simples e importantes para clarificar a mensagem política. É bom para o cidadão e acaba por trazer votos – todos ganham com isso.

No que se refere ao financiamento, como ajudam os municípios?
Em como é que se podem pagar projectos no contexto de implementação de soluções tecnológicas – e a solução não é muito fácil, por causa da nossa contratação pública, que não está preparada para coisas ágeis. É uma barreira ao investimento.

Qual poderia ser a solução?
Temos de arranjar lógicas público-privadas, em que há um investimento privado no sentido de, depois, fazer alguma gestão da coisa pública e retirar os benefícios desse investimento que se fez. A contratação pública nem sempre é muito fácil e essa é outra área onde temos tido alguma zona de preocupação. No contexto tradicional, são as infra-estruturas que dão votos; mas, cada vez mais, o cidadão está atento à sua experiência e não só ao tema das infra-estruturas propriamente dito. É importante que os políticos percebam que colocar orçamentos para as áreas da tecnologia é algo que pode ser politicamente positivo – e cada vez mais isso vai acontecer – e tem de haver também forma de contratar. Desde que sejam projectos coerentes público-privados, tem de se encontrar uma forma de contratação pública a mais médio prazo que previna que um qualquer concorrente que não está disponível para investir e que a única coisa que fez foi colocar um preço baixo, mesmo que o entregue de forma não tão positiva, inviabilize uma estratégia de médio prazo. Há essa necessidade, caso contrário, é muito difícil fazer seja o que for.

“No contexto tradicional, são as infra-estruturas que dão votos; mas, cada vez mais, o cidadão está atento à sua experiência e não só ao tema das infra-estruturas propriamente dito. É importante que os políticos percebam que colocar orçamentos para as áreas da tecnologia é algo que pode ser politicamente positivo e tem de haver também forma de contratar”.

Como vê a maturidade do mercado das smart cities em Portugal?
Ainda não temos maturidade, mas há, de facto, boas gestões municipais. Há ecossistemas mais evoluídos – Cascais, Viseu, Lisboa. No entanto, na maioria dos casos ainda não existe uma visão concertada. Há muitas soluções pontuais que, muitas vezes, não estão integradas. Está a começar a investir-se a participação do cidadão. O caminho que tem vindo a ser percorrido é enorme, mas falta um modelo de governo mais claro para este tema da inteligência nas cidades. Devia haver uma estratégia para as cidades inteligentes ao nível nacional. Agora que poderei ter um pouco mais de força, vou lutar pela ideia de que Portugal deveria ser uma smart nation.

O que é preciso para isso?
É preciso haver mais coordenação intermunicipal, mais benchmarking entre municípios, tem de haver algum tipo de coerência nas políticas a nível nacional e penso que isso não é difícil, mas é um caminho que se tem de percorrer. Tem de se fazer, primeiro, ao nível do Governo, com uma estratégia consistente para as cidades, de seguida, ao nível intermunicipal e das próprias cidades. Tudo o que é e-gov em Portugal é um exemplo internacional. Portugal tem 10 milhões de habitantes, é Nova Iorque. Não há nenhuma razão para não sermos uma smart nation.

Não será difícil conseguir entendimento entre 308 municípios?
É, mas, por isso, deveria haver uma política pública nesse sentido, que lançasse ideias agregadoras. Poder-se-ia começar a organizar, talvez, ao nível das entidades intermunicipais, e isto é um caminho, não é uma ciência exacta em que se determina faz-se assim e faz-se, não.

Referiu que é necessário um novo modelo de governo. Pode explicar?
As câmaras devem nomear responsáveis transversais aos seus diversos pelouros e departamentos por este tipo de iniciativas – antigamente, eram as inovações, mas agora é o smart – e cujo objectivo é pensar transversal e pensar cidadão. A sua missão é pensar a facilidade do cidadão, independentemente de como a estrutura municipal se organiza. A existência destes centros de controlo obriga a centralizar e a correlacionar os domínios da cidade – é importante trabalhar nisto, mas não é fácil, pois é preciso juntar, no mesmo sítio, equipas que normalmente estão separadas e sempre com o mesmo objectivo de servir melhor e mais rapidamente o cidadão.

Mas têm de ter resultados, caso contrário caímos no branding.
Têm de dar resultados! Uma das áreas a que darei prioridade é racionalizar os benefícios que este tipo de iniciativas smart dão às cidades. Não há um único estudo no mundo que explique de forma quantitativa os paybacks, as poupanças. A demonstração dos benefícios para que os próprios autarcas consigam explicar aos seus cidadãos e racionalizar os benefícios que isto traz; e convencer os autarcas que há um custo-benefício, que é um investimento que se faz mas com determinado retorno e pode ser poupança dinheiro, melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, mas tem de se começar a objectivar.

O que gostaria de me dizer sobre a sua experiência como Global Smart Cities Leader daqui a um ano?
Gostava que houvesse, de forma clara, duas cidades em Portugal que fossem o exemplo à escala global em coisas específicas e que outras começassem a aparecer: Cascais, em termos de smart cities, e Lisboa, na mobilidade. Isso era excelente! E que Portugal começasse a ser visto como uma smart nation, com os melhores exemplos de iniciativas e políticas smart no mundo. Gostava de colocar este nosso país pequeno no mapa e fazer de Portugal um hub de knowledge de cidades, incluindo a academia. Isto é, criar uma pós-graduação, muito experiencial com contacto com parceiros locais de tecnologia, de nível internacional onde gestores municipais portugueses e do mundo inteiro se reúnem para ter formação em gestão e que culmina no Mayors' Summit. Esse é o objectivo, se vai acontecer ou não, não sei! A nível internacional, quero fazer crescer mais do que 30% da nossa prática global em cidades e isso será para anunciar daqui a um ano!