Os festivais de música não são um exclusivo de Lisboa e Porto e, um pouco por todo o país, os cartazes multiplicam-se. Afastados dos grandes centros urbanos, estes eventos ganham uma dimensão diferente, entrando em comunhão com o lugar que os acolhe. Para além do impacto económico nos territórios, há um reforçar da identidade e do valor do seu património. Mais do que um festival de música, é uma verdadeira experiência do lugar. Está aberta a temporada!

Para quem gosta de música, acompanhar o calendário de festivais em Portugal é uma faca de dois gumes. Por um lado, a oferta é cada vez maior e há para todos os gostos, desde o mais alternativo ao mais comercial. Por outro, com tantas possibilidades, fica mais difícil acompanhar tudo e seleccionar aqueles “a não perder”. E isto sem falar no arrombo na carteira!... Naturalmente, Lisboa e Porto lideram a oferta, mas, mesmo fechando os olhos às duas maiores cidades, em Portugal, o melómano não fica nada mal servido. Há os mais mediáticos, como o Vodafone Paredes de Coura, o Boom Festival, em Idanha-a-Nova, ou o MEO Sudoeste, na Zambujeira do Mar. E há muitos outros menos falados, como o Quintanilha Rock, em Quintanilha (Bragança); o Milhões de Festa, em Barcelos; o MIMO, em Amarante; o Bons Sons, em Cem Soldos (Tomar); o Andanças, em Castelo de Vide; o Festival do Crato; o Festival Músicas do Mundo, em Sines; o Som Riscado, em Loulé; o Tremor, em Ponta Delgada, entre outros. A lista é (quase) infindável e muitos destes eventos não se limitam à música, ganhando novas dinâmicas com outras artes à mistura.

Um bom programa e artistas de renome são sinónimos de entretenimento garantido, no entanto, fora dos grandes centros urbanos, estes factores podem não ser suficientes para que os eventos se afirmem entre os demais. É por isso que muitos destes festivais tentam dar qualquer coisa extra ao seu público e estão a ir buscá-la ao lugar onde acontecem. Mais do que proporcionar uma experiência musical e artística, os promotores reconhecem cada vez mais valor em criar, também, uma ligação ao território e à identidade do local, à comunidade e aos seus costumes. Numa simbiose entre a música e o lugar, o evento ganha contornos únicos, o território valoriza-se e o espectador fica com a melhor parte: a experiência.

A ilha que “treme”

Ponto de encontro: um parque de estacionamento em Ponta Delgada. Sessenta pessoas, escolhidas ao acaso, esperavam ansiosamente a surpresa que a organização do Tremor lhes havia preparado. Dali, foram para o aeroporto, seguindo num avião para a ilha de Santa Maria, onde tiveram uma experiência de 14 horas, na qual aprenderam a fazer biscoitos e tapetes, comeram refeições “incríveis” e assistiram a um concerto surpresa dos brasileiros Boogarins, no centro de Vila do Porto. O entusiasmo do momento, que aconteceu na edição de 2018 do Tremor, entre os dias 20 e 24 de Março, ainda se sente nas palavras de António Pedro Lopes, co-director artístico do Festival, que, embora tenha em Ponta Delgada a sua “cidade mãe”, vai, aos poucos, tocando outros pontos da ilha de São Miguel e até do arquipélago.

O Tremor está, hoje, na sua quinta edição, mas nasceu num momento em que a crise económica se fazia sentir e roubava ao centro de histórico de Ponta Delgada o seu papel enquanto lugar de encontro. “Havia uma sensação forte de cidade fantasma, com lojas a fechar, e o Tremor surgiu como um princípio de injectar alguma vida e movimento, criar um novo roteiro cultural e, de alguma forma, reavivar ou reacender a vida no centro histórico”. Perante este cenário, nas primeiras conversas entre António Pedro Lopes e Luís Banrezes, da Yuzin, colocou-se a possibilidade de trabalhar nos espaços devolutos e abandonados da cidade, mas optou-se por “fortalecer e potenciar o que persistia, o que continuava de porta aberta”, envolvendo, desta forma, os agentes locais. E assim foi: nesse primeiro ano (2014), o festival, que durou apenas 24 horas, aconteceu em 20 espaços da cidade e dedicou-se exclusivamente à música portuguesa. Na audiência, estavam locais, ainda intrigados com a essência do evento e um tanto ou quanto resistentes a um nome que lhes invocava uma parte menos boa dos Açores [catástrofes naturais], e turistas, espectadores acidentais que visitavam a ilha por outras razões.

A partir daí, tudo foi diferente. A liberalização do espaço aéreo açoreano, que aconteceu em Março de 2015, trouxe uma nova dinâmica a Ponta Delgada e, hoje, a cidade já não é o que era. “A paisagem mudou radicalmente, a cidade é um lugar vivo, está repleta de cafés, de hostels, de lugares para as pessoas estarem, se encontrarem e tomarem um café”. O Tremor mudou também: hoje, são cinco dias de festival, que, em 2018, incluíram 50 projectos artísticos, 120 artistas (música, cinema, fotografia, artes visuais, artes performativas) e contaram com o envolvimento de 68 agentes locais.

Organizar o Tremor é, acima de tudo, um processo colaborativo. “Chamo-lhe uma conversa, que começa com os quatro responsáveis pela curadoria”, graceja António Pedro Lopes. Depois, “espelha-se num ecletismo da proposta artística até ao modo de operação, que é feito com dezenas de agentes no território, o governo local, embaixadas, confederações, marcas privadas. Tudo feito em conversa”. A fórmula não se repete e, a cada edição, o festival é renovado. Pensa-se, em conversa, como este se vai relacionar com o território que lhe serve de fundo e com as várias comunidades que nele participam, sempre numa lógica de inclusão. Ninguém fica de fora: “Desde há três anos, trabalhamos com a escola de música de Rabo de Peixe, uma das comunidades mais desfavorecidas do país e, este ano, por exemplo, trabalhámos com uma comunidade de surdos, que nunca tinha participado num festival de música sequer”. O objectivo é criar uma experiência que una as pessoas, o lugar e a música. “É um desenho, uma coreografia de uma experiência artística em que, de repente, se é atravessado nos sentidos pela paisagem açoriana e pelas pessoas que a fazem”, descreve.

Em 2018, a lotação foi esgotada, com 1500 participantes diários nas actividades do Tremor. Em 2017, estima-se que o seu impacto económico tenha rondado os 350 mil euros, sendo que, ao nível da comunicação, este chegou ao milhão de euros. Estes números são particularmente importantes para a câmara municipal de Ponta Delgada, um dos parceiros financeiros do Tremor, que contribui com 15% do orçamento total. Na justificação do apoio e “enquanto estratega da promoção da cidade”, José Manuel Bolieiro, presidente da câmara municipal, não esconde a sua expectativa relativamente ao impacto mediático e ao envolvimento com as artes e talentos aos níveis nacional e internacional. A favor do Tremor está também a componente de democratização do acesso à cultura, da manifestação artística que não exclui o território e que envolve as comunidades locais. “Sou muito mais favorável a ideias de experiência que, na verdade, não alienam outras situações, mas que, pelo contrário, envolvem a assistência com uma experiência cultural. Isso convenceu-me enquanto cidadão e decisor político”, explica.

Ao sucesso de cada edição, o festival vai-se constituindo como “um evento âncora” da cidade e até da ilha, mas, sublinha o autarca, não acontece isolado, estando inserido num “quadro de pensamento” que visa promover Ponta Delgada como “um espaço cosmopolita, aberto à criação e, em certa medida, à experiência e inovação cultural e artística”. Nesta estratégia, juntam-se ao Tremor eventos como o Walk & Talk, os roteiros religiosos ou o programa de noites de verão no centro histórico, enumera o autarca.

O papel do município em identificar que propostas artísticas “marcam o lugar” é, para António Pedro Lopes, determinante, cabendo a esta entidade “a responsabilidade de ler e interpretar o que acontece” e definir uma estratégia política para a cultura e turismo. “Ou seja, o que quer, o que procura, como ocupa o espaço, como convida a participar e criar dinâmica de encontro entre quem vive ali e quem visita. É muito importante pensar que identidade essas manifestações dão àquele lugar e como isso se comunica”, argumenta.

Para a autarquia, há, nesta estratégia, um “retorno não mensurável, que passa pela  notoriedade e notabilidade” de Ponta Delgada enquanto destino turístico e cultural. “Este é que é o verdadeiro retorno, [a par de] uma adaptação aos novos tempos da própria mentalidade dos residentes. E, depois, despertar e descobrir vocações e talentos para a manifestação cultural, mais criativa e inovadora, que estes eventos proporcionam”, justifica José Manuel Bolieiro.

Potenciar o património e cultura existentes

Se o Tremor nasceu da génese de uma cidade, outros há que, pela génese, escolhem a cidade que os recebe. É o caso do MIMO Portugal, que, desde 2016, acontece, nos meses de Julho, em Amarante. O festival tem origem no Brasil, onde conta já com 15 anos de existência, e, apesar de ir buscar uma fórmula pré-existente, a essência do evento passa pela sua imersão no património local. “O MIMO sempre teve lugar em cidades históricas, valorizando o património histórico e a ocupação da cidade, pelo que é natural que tivéssemos escolhido Amarante”, conta Carlo Bartilotti, produtor do evento, chamando-lhe uma espécie de “resgate cultural, que dá visibilidade a cidades que são tesouros escondidos  fora dos grandes centros urbanos e que valem a pena visitar”.

Nos três dias de MIMO, os concertos acontecem pela cidade, nas igrejas e museus, reservando-se, para o palco principal, o cenário emblemático da zona ribeirinha. À semelhança do Tremor, o MIMO não trata só de música e privilegia outras artes, como o cinema musical ou a literatura, havendo uma programação de conferências e workshops dados pelos músicos do festival, em jeito de “contrapartida” à cidade. A produção do evento adoptou a política de não ter bilheteira, o que significa que quem participa pode fazê-lo gratuitamente e tem, assim, mais dinheiro disponível para investir na economia local. “Por ser gratuito não significa que as pessoas possam levar uma má experiência”, alerta Carlos Bartilotti. Nesse sentido, há que trabalhar com a cidade e uma das acções levadas a cabo nesse sentido foi a de dar formação à restauração local, para melhorar não só a comunicação com os festivaleiros, mas também para ajudá-los a optimizar o serviço de forma a dar resposta a uma maior procura.

No caso do MIMO, a curadoria é feita apenas pela organização, mas, em paralelo, há um trabalho contínuo com a cidade amarantina e com os agentes locais, nomeadamente a Associação Gatilho, o Centro de Artes ou o Cineclube de Amarante. De acordo com o produtor, essa colaboração esteve também visível na candidatura bem sucedida de Amarante a Cidade da Música da Rede de Cidades Criativas da UNESCO. “Fizemos questão de mostrar que estávamos com a cidade e que acreditamos na forma como esta está a ser pensada e desenvolvida no plano cultural”, afirmou.

Para a edição de 2018, estima-se que o número de participantes tenha sido entre os 80 mil e 100 mil. Uma assistência muito superior à do ano de estreia, em que o evento recebeu 24 mil pessoas. Em 2017, foram cerca de 60 mil os festivaleiros, representando um impacto na economia local superior a 1,24 milhões de euros. Também aqui a autarquia é parceira financeira, e, no ano que passou, o valor de investimento directo estimado da câmara municipal de Amarante no MIMO rondou os 300 mil euros, sendo que há depois alguns investimentos indirectos a fazer, explica André Magalhães. O vereador dos pelouros de Empreendedorismo e Inovação, Promoção do Desenvolvimento Económico, Turismo e Juventude da cidade confirma o retorno positivo, quer ao nível do impacto económico local, quer ao nível da promoção. “Uma percentagem muito significativa dos participantes do MIMO refere-se a pessoas que vieram a Amarante pela primeira vez e que tencionam visitar novamente. Há aqui uma questão de afirmação, de dar a conhecer e de mostrar Amarante na sua riqueza cultural, que para nós é importante”, esclarece. Para além disso, ser anfitriã deste festival vai ainda ao encontro daquilo que é a missão da cidade enquanto Cidade Criativa, “utilizando a criatividade como um elemento fundamental na estratégia de diferenciação e desenvolvimento regional e local”.

Na terceira edição (2018), conta André Magalhães, o município pretendeu ainda reforçar a presença da identidade cultural amarantina no festival e, para isso, procurou novas formas de colocar produtos tradicionais nos espaços gastronómico, fazer percursos que permitam aos visitantes sair das zonas de espectáculo e visitar outros pontos de interesse. “Em 2017, fizemos a iniciativa ‘MIMO a minha cidade’, para a qual convidámos ilustradores e autores a criarem duas histórias para serem recriadas nas montras das lojas de Amarante. As montras eram o livro que contava essa história e as pessoas iam, loja a loja, para a ler. É uma forma de, com a produção do MIMO, aumentar as externalidades da ligação entre a nossa cultura e aquilo que o evento nos proporciona”.

Tomar como seu

Quando olhamos para lá das grandes cidades, dar abrigo a festivais de música e de artes é uma forma de “os territórios mais frágeis contrariarem, muitas vezes, tendências de perda demográfica, fragilização económica e social”, explica José Cadima Ribeiro, professor catedrático do departamento de Economia da Universidade do Minho. “É uma forma de tentar introduzir momentos altos no ciclo anual e económico das terras e tentar, por essa via, trazer pessoas e criar dinâmicas em termos de investimento, criação de equipamentos, desenvolvimento de um conjunto de serviços que possam constituir elementos de animação económica, social, etc.”. O investigador, que tem estudado os efeitos da iniciativa “Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012”, reforça a importância da ligação entre a natureza do evento e o tipo de recursos e identidade do território, sob o risco de prejudicar os resultados pretendidos. “Se o evento é transplantado para ali e não tem nada a ver com o local, os efeitos são mais limitados. A par dos impactos que o evento tenha em concreto, muitas vezes, o que está em causa é criar uma imagem de um território e não se pode projectar uma imagem desenquadrada, pois isso significa que qualquer outro lugar pode recriá-la e, desse ponto de vista, não cria valor, não marca o elemento identitário”.

Ainda que de formas diferentes, tanto o Tremor como o MIMO procuram essa ligação ao lugar e identidade existente. O primeiro, numa lógica de co-criação permanente; o segundo, numa perspectiva de resgatar e potenciar o que já existe. Mas nenhum deles seria possível sem um ecossistema de criatividade, que resulta do encontro e do convite à criação, mas que deve ser, antes de mais, estimulado pelas políticas públicas de apoio à cultura.

Para que este tipo de eventos vingue, refere José Cadima Ribeiro, é preciso, por um lado, que as autarquias os “agarrem como sendo deles” e, por outro, que os promotores percebam que o “evento também vai viver da relação com os residentes e que, se estes não o olharem como algo que é seu, está condenado ao fracasso”.

A conjugação de actores e vontades surge também como um elemento chave para o sucesso das iniciativas. Dada a sua pequena dimensão, se esta conjugação não existir, estes territórios são mais vulneráveis aos efeitos do “abandono” de um evento como um festival de música. José Cadima Ribeiro dá o exemplo de Vilar de Mouros, em Caminha, que esteve suspenso durante anos em resultado de uma disputa entre os organizadores, o que acabou por abrir espaço para a emergência do festival de Paredes de Coura, ali bem próximo.

Capacidade de carga

Pode um evento ser grande de mais para uma cidade? É uma possibilidade, e o trabalho de José Cadima Ribeiro sobre “Guimarães, Capital Europeia da Cultura” levantou algumas questões nesse sentido, concluindo-se que cidades maiores, com um conjunto maior de recursos, conseguem projectar um conjunto maior de actores nesse território que tiram mais partido do acolhimento desses eventos, explica o docente. Quando é preciso ir buscar esses elementos fora, isso vai diminuir o impacto interno. Nesses casos, pensar uma estratégia de concertação entre cidades ou municípios vizinhos ajudará a dar escala ao evento e ampliar os seus efeitos, “mas, muitas vezes, há aí vistas curtas ou rivalidades regionais que o impedem”, lamenta.

“A capacidade de carga de Amarante já foi ultrapassada largamente, por isso é que fazemos a articulação com agentes regionais”, explica André Magalhães. Ao nível interno, a cidade conseguiu aumentar o espaço das actividades para diluir as pessoas pelos diferentes palcos, mas, no que se refere aos serviços de apoio, é preciso articular com todo o território, com um raio de 50 a 60 quilómetros. “Apesar de trazer impacto ao nível da promoção e visibilidade, no que diz respeito ao impacto económico directo para Amarante, o MIMO não pode não trazer muito mais, mas, para a região, poderá trazer. E temos de continuar a almejar o objectivo de ter ainda mais pessoas”.

Em São Miguel, a questão não se coloca nos mesmos termos, já que a pressão turística a que a ilha tem estado sujeita prende-se, essencialmente, com o seu riquíssimo património natural. Todavia, o município de Ponta Delgada mostra-se atento aos riscos dessa massificação e, segundo José Manuel Bolieiro, as suas políticas têm sido no “apoio e incentivo à regeneração e reabilitação urbana, favorecendo a qualificação da cidade na sua estrutura patrimonial imóvel e de serviços (oferta estacionamento, licenciamento de actividades envolvimento turístico...)”. Paralelamente, o executivo tem procurado “criar uma ideia de recenseamento dos activos de natureza com potencial turístico, no sentido de os preservar e qualificar”.

Em termos logísticos, “preparar uma cidade pequena, como Amarante, para acomodar 30 mil pessoas por dia é que é a grande produção do festival”, exclama Carlos Bartilotti. Na lista de prioridades do produtor do MIMO, estão elementos como as condições sanitárias, a limpeza das ruas, os fluxos de tráfego, a segurança, os corredores de evacuação, a existência de parques de estacionamento, os parques de campismo, o carregamento adicional de dinheiro nas caixas multibanco, entre outros. A cidade também tem de se adaptar. “Nesses dias, há que contemporizar e permitir, por exemplo que os estabelecimentos comerciais encerrem mais tarde. A cidade tem de estar aberta até às 6 da manhã! Isso torna a experiência agradável e esse entendimento de como a cidade se deve comportar para receber pessoas de fora é a grande chave do sucesso”, conclui.

 

 

*Artigo originalmente publicado na edição de Abril/Maio/Junho de 2018, aqui com as devidas adaptações. Para saber mais sobre esta edição, clique aqui.