Esquecido durante décadas, o bairro de Marvila está a recuperar a energia de outros dias. Se antes eram as fábricas de fósforos e de munições e as quintas e os armazéns que animavam as ruas, hoje são as galerias de arte, as oficinas criativas, os bares e as cervejeiras. A Dois Corvos, a Lince e a Musa são três fábricas de cerveja artesanal que ali se instalaram e que estão a transformar a velha Marvila no novo Lisbon Beer District.

À frente da mercearia do senhor António Ferreira, “era tudo fábricas”. Ali trabalhavam “cerca de quatro mil pessoas”. E na rua Afonso Annes Penedo, onde vive, “só havia dois carros, o do antigo dono deste estabelecimento e o de um senhor que morava ali ao lado”. Nessa altura, não eram ainda os carros a preencher a rua. O cenário de há 50 ou 60 anos não se repete. “À hora de almoço, não havia espaço nos passeios e na rua”, conta António Ferreira, que vive no bairro de Marvila há 55 anos. “Eram tantas as pessoas [que] vinham para aqui por causa das fábricas”. E “isso era significativo”, conta. O centro da freguesia era um lugar importante para a manutenção da vida da cidade. Com as fábricas a laborar, os armazéns de vinho a garantir que não faltava bebida aos lisboetas e as muitas quintas e hortas a abastecer o bairro e a cidade, este era um lugar vibrante. “Havia aqui cinco mercearias, três lugares de hortaliça e inúmeros vendedores ambulantes com os carrinhos. Passado este tempo, hoje, quem resta? Sou só eu, mais ninguém”.

Os tempos mudaram, as fábricas encerraram e a maior parte das pessoas “foi saindo”. E com elas também os transportes, que serviam bem o bairro “no tempo em que era uma zona fabril”, escasseiam. Aqui, o metro teimou em não chegar e para uma deslocação até à Baixa, ali tão perto, a apenas quatro quilómetros, António tem de apanhar “pelo menos dois transportes”. Marvila é geograficamente acessível, mas foi esquecida. Foi a decadência industrial a relegá-la para uma posição de periferia. Mas as coisas mudam – e estão a mudar agora mesmo.

Apesar de não ter muito por onde crescer – as suas fronteiras estão fisicamente condicionadas –, Marvila velha tem uma vida perdida por recuperar. A linha de comboio que a atravessa separa o bairro velho das zonas novas e é um obstáculo físico que aperta este pequeno território, esquecido, por um lado, entre a ferrovia e o rio, e, por outro, entre o Parque das Nações e a baixa da cidade. Há, contudo, pequenos sinais que surgem. No mesmo lugar das velhas fábricas e armazéns, instalaram-se, ali, três cervejeiras: a Dois Corvos, a Lince e a Musa. As três lideram a revitalização do bairro, trazem gente de fora e conquistam os de dentro. Mas não estão sozinhas. Recentemente, também um bar e várias galerias de arte ali abriram portas.

Este pode muito bem ser o retomar da vida de outros tempos. O bairro esquecido é, agora, lembrado e o património industrial edificado não é para “mandar abaixo”. Ganha nova vida dentro das mesmas paredes. Este é um relato que não é atestado só pelos fundadores das cervejeiras, mas também pelo senhor António, da mercearia, e pelos outros moradores, resistentes de longa data.

“Havia aqui cinco mercearias, três lugares de hortaliça e inúmeros vendedores ambulantes com os carrinhos. Passado este tempo, hoje, quem resta? Sou só eu, mais ninguém”.

António Ferreira

morador no Bairro de Marvila há 55 anos, onde tem uma mercearia.

Três cervejeiras unidas. Não por coincidência, mas quase

Antes de fundar a Dois Corvos e de vir para Portugal, Susana Cascais vivia em Seattle com o marido, Scott. Vieram “no ano em que o barco bateu mais fundo, [em] Dezembro de 2012, com a troika”. Scott “já fazia cerveja desde os tempos da faculdade” e, assim, com a cama e a cómoda, trouxeram também “no contentor a panela para fazer cerveja”. Na altura, já existiam algumas - poucas - cervejeiras artesanais em Portugal, mas Lisboa era um caso “estranho”. Era uma capital europeia que não tinha “uma única cerveja artesanal”. Com o empurrão de amigos e família, foram eles quem, primeiro, mudou essa realidade. A escolha, que recaiu em Marvila, não pode ser confundida com um acaso. Os preços eram aceitáveis e as antigas fábricas e armazéns afiguravam-se como espaço ideal para montar uma fábrica de cerveja artesanal.

Pouco tempo depois, chegaram a Lince e a Musa, que ocuparam antigos espaços industriais na velha Marvila. Nada disto foi combinado, “fazia sentido era vir para Marvila”, conta Bruno Carrilho, da cervejeira Musa. Bruno e o seu sócio eram consultores de gestão e, apesar de não terem “background cervejeiro nenhum”, ficaram “apaixonados pelo mundo da cerveja”. Abandonaram a consultora em que trabalhavam e, com o input técnico de um cervejeiro americano, criaram a Musa. O espaço que hoje ocupam é o maior e o mais imponente das três cervejas de Marvila. A taproom da Musa, isto é, a sala onde é possível provar as cervejas, tem vista para a fábrica e recebe todos os que vêm beber, desde os beer geeks (os nerds da cerveja), capazes de descodificar todos os ingredientes, até aos beginners (os novatos), que chegam ao balcão e, insuspeitos, sem darem ainda conta das múltiplas variações e tipos de cerveja, pedem “‘[uma] imperial, se faz favor’”. “É o que ainda vai acontecendo”, conta Susana, mas as coisas estão a evoluir bastante. Esta é uma contracultura que está, agora, a virar mainstream. Quando Bruno começou, há quase quatro anos, as pessoas nunca tinham sequer tinham ouvido falar de cerveja artesanal. ‘O que é isso’ era ainda uma reacção comum. Hoje, para além dos geeks, há já muitos que, sem serem grandes especialistas, provaram várias e não cometem o sacrilégio de pedir uma imperial.

A Dois Corvos também tem uma taproom e, para lá chegar a partir da fábrica da Musa, basta andar uns metros, num percurso de dois ou três minutos e que é suficiente para perceber que se está numa aldeia no meio da cidade. Seguindo em frente, na rua Capitão Leitão e, logo à esquerda, está a mercearia do senhor António, na Afonso Annes Penedo. Neste cruzamento, a Lince, que ainda não tem um espaço próprio para dar a provar as suas cervejas (uma falha que será resolvida), serve a sua cerveja no bar Capitão Leitão. Mas o trajecto até à Dois Corvos ainda não terminou. É preciso continuar na Capitão Leitão, que, depois, vira à esquerda. É lá ao fundo, na pacata rua, que se encontra o balcão e as mesas, onde são servidas as cervejas criadas pela Susana e pelo Scott. As paredes estão pintadas e, no final do dia de trabalho, o espaço enche com facilidade. Se quem aqui passa num dia de semana dá obrigatoriamente conta da pacatez, um olho mais atento percebe que está perante uma dinâmica recente, que está a devolver, aos poucos, a vida de outros tempos, a colocar um sorriso nas caras dos residentes e a promover o fulgor económico e criativo no pequeno bairro.

Entre a Musa e a Dois Corvos, num espaço de 300 metros, um transeunte depara-se com o velho e com o novo. E todos contribuem. As três cervejeiras, a mercearia do senhor António, o bar Capitão Leitão e as quatro (sim, quatro) galerias de arte ali instaladas. A cerveja artesanal está a trazer cada vez mais gente a Marvila, mas “nenhuma das cervejeiras tem budgets de marketing”, este é um movimento que acontece “na base do amigo conta ao amigo”, conta a fundadora da Dois Corvos. Tem vindo a sentir-se um crescendo, sobretudo na “diversidade” do público. Hoje já há clientela fiel, “repetida”, e são muitos os geeks que, a pensar no fim de semana, passam ali para se abastecer, com as growlers – garrafas de um ou dois litros próprias para transportar cerveja. Boa parte daqueles que chegam para visitar as cervejeiras fá-lo ao fim do dia.

“O horário mais forte é claramente aquele horário pós-laboral, antes do jantar”, conta Bruno Carrilho. Muitos aparecem vindos da zona da Expo, antes de seguirem para casa, mas muitos trabalham já na área. A dinâmica recente por que Marvila tem passado está a trazer ao bairro muitas indústrias criativas e muitos dos que aí trabalham são frequentadores assíduos das cervejeiras. Mas não são só pessoas estranhas ao bairro a participar activamente nas mudanças recentes. Os novos negócios que ali se têm instalado não estão a destruir o “sentimento de comunidade” enraizado. Estão, antes, a alimentá-lo. “O vizinho do prédio ao lado” da Dois Corvos “vai todas as semanas beber uma Galáxia”, uma das cervejas que Susana produz. “Adora, já comenta: ‘ah, este lote não saiu como o anterior’”.

Uma das intervenções feitas no âmbito do My Street (antes e depois).

Musa - © Valter Vinagre.

Um bairro cervejeiro e um novo alento

Bruno, Susana e António Carriço, co-fundador da Lince, cedo perceberam que tinham a ganhar – e davam a ganhar, ao bairro – com a criação de um destino. Assim foi: nasceu o Lisbon Beer District. Hoje, esta zona velha de Marvila começa a estar associada à cultura cervejeira e, no bairro, esta é uma etiqueta que não chateia. À semelhança do Beer Mile, um bairro londrino que junta dez cervejeiras artesanais, o distrito da cerveja lisboeta quer dar um empurrão à “cultura cervejeira” e apresentar-se enquanto “destino para as pessoas que têm curiosidade com a cerveja”.

O Lisbon Beer District realiza várias festas. O bairro enche, como não acontecia há décadas, e, à celebração, juntam-se moradores e comerciantes locais. Sempre que há festas promovidas pelas cervejeiras, com o apoio da junta de freguesia, o comércio local sabe tirar partido e associa-se. Cafés, restaurantes e até a mercearia do senhor António deixam as portas abertas até mais tarde para aproveitar as enchentes.

Alguns comerciantes locais trazem mesas com comida para a rua e alimentam a festa. “Não espero realizar centenas de euros, mas se realizar dezenas, além do que realizo normalmente, já é bom para mim”, conta António, hoje a bater “à porta” dos 73. Para ele, as festas têm ajudado o comércio local. Há pais que vêm com filhos “e, claro, não lhes vão dar um copo de cerveja”, então, entram no seu estabelecimento e levam um chocolate, uma peça de fruta ou um bolo. Todos parecem ganhar. Há sempre vizinhos que não gostam, “mas isso são extremos”. António, como a maioria dos residentes, gosta. Isto “veio animar o bairro”. Os que não gostam, aqueles que António ouve dizer “não se consegue dormir”, são os mesmos “que diziam ‘isto aqui é uma pasmaceira, não acontece nada’”.

António Carriço, da cervejeira Lince, conta uma história idêntica: “Há pessoas que vivem aqui há dezenas de anos e que nos dizem ‘finalmente Marvila está a renascer’”. Aqueles que chegam pela cerveja “acabam por conhecer Marvila”. E o Lisbon Beer District, garante, “não é um conceito fechado”. Para além de fazerem cervejas com cervejeiros de outros pontos do país e de terem “o cuidado de envolver uma quantidade de restaurantes, galerias de arte e hubs criativos” do bairro, estão “completamente abertos” a integrar outros cervejeiros que ali venham a instalar-se. E isso é algo que provavelmente virá a acontecer. Bruno Carrilho sabe “pelo menos de uma que diz que já arrendou um sítio e vem para cá”.

A ideia por detrás do Lisbon Beer District é a promoção da cultura cervejeira, mas a dissociação da vizinhança é impossível. A cerveja artesanal está a trazer gente de fora e a ajudar os de dentro. Susana Cascais conta que, no caso da Dois Corvos, três dos trabalhadores “moram por cima da fábrica”. Se “antes não se via ninguém abaixo de uma certa faixa etária” no bairro, “agora começa a ver-se”. Bruno fala em “outras formas de envolver as pessoas do bairro”, em “alavancar os negócios que existem aqui à volta”. A comunicação da marca é feita por uma agência instalada no bairro e o placard que mostra as cervejas disponíveis na fábrica da Musa “foi feito pela Fábrica Moderna, que é uma espécie de workshop moderno que existe ali ao fundo”. Bruno dá conta do “espírito de comunidade” que se vive e faz notar que também se esforçam por “contratar pessoas que sejam das redondezas”. “Queremos estar dentro do tecido, não queremos ser um corpo estranho”.

Da esquerda para a direita, António Carriço (Lince), Susana Cascais (Dois Corvos) e Bruno Carrilho (Musa).

A traça é para manter, mas a moda traz ameaças

As três cervejeiras, assim como as galerias de arte e as indústrias criativas que vieram instalar-se aqui, fizeram-no sem mudar a paisagem, garante António Carriço. A sua cervejeira artesanal foi a segunda a chegar ao bairro e a esperança que preserva “é a de que Marvila se mantenha com esta traça”, esperança que, até agora, está materializada na realidade do bairro e tem sido confirmada por todos os novos inquilinos. Tanto a Lince, como a Musa e a Dois Corvos fizeram por isso. Instalaram-se em antigas fábricas e armazéns do bairro. Algumas ganhavam pó há mais de meio século. E recuperaram-nas, quase sem tirar nem pôr. A Lince instalou-se numa antiga fábrica de fósforos e a Dois Corvos num antigo armazém de vinhos. “Não se destruiu nada”, garante.

Mas se a vitalidade e o rejuvenescimento são tendências sempre desejáveis em lugares esquecidos, demasiada atenção pode trazer ameaças. Na sua mercearia, o senhor António tem dado por “uma agitação bastante grande em termos de procura de casa”, causada, talvez, pelo anúncio de “virem ajardinar esta zona toda” junto ao rio e pela construção do famoso projecto imobiliário Jardins de Braço de Prata, com a assinatura de Renzo Piano, logo ali ao lado.

O aumento dos preços no mercado imobiliário de Marvila é, também, claro para os três cervejeiros. Mas esta subida, observada por quem está todos os dias na zona velha, mais apetecível, não se traduz, ainda, nos números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que dão conta, neste território bem maior do que a velha Marvila, da única descida de preços de todas as freguesias lisboetas no terceiro trimestre de 2017, face ao mesmo período do ano anterior (-5,5%). Embora a subida de preços do imobiliário não tenha, até agora, atingido Marvila como atinge outras freguesias da capital, também aqui os preços sobem e a gentrificação espreita. “As rendas tiveram uma subida louca”, conta o veterano do bairro. E ilustra com um exemplo próximo: “Há coisa de um ano” arranjou, a um velho amigo, “uma casa de três assoalhadas com renda de 350 euros”. Dois meses volvidos, o mesmo senhorio pedia ajuda a António para encontrar inquilinos para um apartamento idêntico. Mas António não teve, sequer, tempo de ajudar. “Passados dois, três dias, [o senhorio] veio ter comigo” com a notícia de que já havia alugado a casa. “‘Olhe, aluguei por 600 euros. É verdade, e aceitaram logo à primeira’”, anunciara-lhe. Agora, perguntam-lhe “todos os dias” na mercearia se não sabe de casas para arrendar.

Este é um tema que os responsáveis pelas cervejeiras têm bem presente. Susana tem “esse receio”, mas considera que a gentrificação está ainda “longe” de chegar a Marvila. Não quer ver o bairro cheio de Airbnb’s, mas considera que é preciso haver um “rejuvenescimento”, que “é preciso fixar populações mais jovens”. Por agora, com cautela, parece ser para aí que o bairro caminha.

Uma das intervenções feitas no âmbito do My Street (antes e depois).

© Dois Corvos.