Quando se pensa em tecnologias de informação aplicadas à saúde, rapidamente se pensa em telemedicina e monitorização remota, mas as potencialidades são muitas mais. Para Nuno Vasco Lopes, CEO da empresa tecnológica portuguesa Glintt, as grandes tendências do sector impulsionadas pelas novas tecnologias passam por tornar as pessoas mais capacitadas e responsáveis pela sua saúde, ao mesmo tempo que os agentes colocam “o cidadão no centro da actividade do sistema de saúde”.

O que é que as novas tecnologias estão a trazer para o sector da saúde?
A área da saúde tem algumas características especiais, nomeadamente por se tratar de uma área muito regulamentada e por ter um impacto muito significativo na vida das pessoas. Tem grandes desafios no seu desenvolvimento, sendo o primeiro o da sustentabilidade do próprio sistema de saúde. O segundo tem a ver com o acesso e a garantia de que os cidadãos têm acesso ao sistema de saúde numa forma mais próxima de cuidar e de serem responsáveis pela própria saúde. O terceiro tem a ver com a qualidade dos cuidados prestados, que é algo que é uma exigência da sociedade e para a qual a tecnologia pode dar um contributo muito importante.

As novas tecnologias vieram proporcionar melhorias nestas três áreas?
Vieram, mas existe ainda um longo caminho a fazer. As características do próprio sector, nomeadamente em termos regulamentares, por exemplo, em relação à protecção de dados pessoais e ao licenciamento e regulação das próprias entidades desta área, levam, muitas vezes, a que haja algum cuidado adicional para que estas áreas possam incorporar inovação tecnológica. Tem existido um caminho, mas entendemos que há ainda um outro longo para percorrer e muito investimento a fazer em termos de inovação ao nível das tecnologias de informação – na saúde, existem outras áreas de inovação, podemos estar a falar de equipamentos, medicamentos, etc. Estas características do sector devem ser preservadas e as tecnologias têm de responder às necessidades das pessoas, ao mesmo tempo que conseguem cumprir esses requisitos. E penso que, seguramente, a tecnologia vai conseguir corresponder a estas necessidades... sou optimista.

Isso será uma transformação que acontece no sector público ou tem de partir do privado?
Em Portugal, a saúde depende na sua maioria do sector público e a minha resposta, muito objectiva, é: se o sector público não se transformar, a saúde em Portugal terá muita dificuldade em transformar-se por si. É absolutamente essencial que os serviços de saúde públicos se transformem e adoptem novas tecnologias para aproximar as pessoas e melhorar os cuidados que prestam.

Isso vai exigir um investimento significativo. Como podemos encontrar um modelo sustentável que nos permita chegar a esse ponto?
O sector público depende muito de decisões políticas e, sobre isso, não me pronuncio, mas a incorporação de tecnologias no serviço de saúde torna o serviço mais eficiente e a percepção que as pessoas têm sobre a qualidade dos cuidados prestados melhora significativamente. É preciso investimento, sim, mas os meios para o fazer têm de partir do próprio sistema de saúde, que tem de ser mais eficiente nos serviços que presta actualmente.

“O único elo que existe é o cidadão. Se o centro da nossa actividade for as pessoas, conseguimos ligar todos estes agentes como sendo prestadores de cuidados, mas que têm a ligação e a necessidade de partilhar informação entre si para prestar melhores cuidados à população. A interoperabilidade entre os agentes do circuito é um tema essencial para a garantia da melhoria dos cuidados de saúde às pessoas”.

Quando falamos de tecnologia, a acessibilidade é uma questão pertinente. Pode a tecnologia ser um factor de exclusão também na saúde?
Muito sinceramente, não. Portugal é um dos países do mundo com maior capacidade de aceitação tecnológica e o que é importante ter em mente é que uma solução nunca vai cumprir as necessidades de 100% da população. O que temos de garantir é que a maioria da população é servida por uma solução eficiente e que a aproxima dos cuidados de saúde. Há que preservar a universalidade do acesso aos cuidados de saúde. A tecnologia pode trazer vantagens significativas nesta questão. Quando falamos de acesso à saúde, não falamos só da admissão das pessoas aos cuidados de saúde, falamos também na proximidade desses cuidados em casa do cidadão. E, aí, a tecnologia tem um papel muitíssimo importante porque permite que o acompanhamento das pessoas que precisam de cuidados especiais possa ser feito no seu domicílio e não ao nível hospitalar. Isto torna-se mais abrangente, mais integrador, mais universal em termos de acesso. A tecnologia é um bom meio de garantir a universalidade da prestação de cuidados de saúde.

Que exemplos de tecnologias temos hoje que possam estar a fazer essa diferença?
O primeiro exemplo refere-se à telemedicina, que garante que cuidados especializados sejam prestados à distância, mesmo que as pessoas estejam em zonas mais remotas – esta é uma área de transformação muito grande. O segundo exemplo tem a ver com a Internet das Coisas e com a capacidade que o mercado tem, hoje, de entregar dispositivos para poder fazer monitorização remota e acompanhamento dos doentes, nomeadamente nas suas casas. São dois exemplos sobre como a forma como conseguimos gerir informação e prestar cuidados à distância pode mudar significativamente a vida das pessoas.

Portugal está a acompanhar essas tendências?
Sim, em Portugal há um investimento grande a ser feito em telemedicina e já existem experiências estabilizadas nessa área e na monitorização remota dos doentes no seu domicílio. Existem também hospitais em Portugal com projectos de telemedicina para países, por exemplo, de língua oficial portuguesa. E temos isso em hospitais públicos e privados. O Hospital de Santa Maria, por exemplo, tem um serviço de telemedicina.

A par da proximidade com as pessoas, há também uma oportunidade no que toca à gestão da informação.
No processo de transformação digital, a gestão da informação é um dos maiores desafios que existe não só na saúde, mas na sociedade em geral. A tecnologia serve para dar uso à informação. Temos de ter inteligência suficiente para conseguir tornar a informação útil para a nossa actividade e para os cuidados que prestamos às pessoas. Para além disso, o sistema de saúde tem de se transformar e colocar as pessoas no centro da sua actividade. O segredo do sucesso é conseguir ter informação em tempo real para ajudar a suportar decisões clínicas para um determinado indivíduo. Neste momento, este é o grande desafio.

É a adaptação do conceito de cidade inteligente ao sector da saúde.
Exactamente e há um factor adicional: existem diversos níveis de prestação de cuidados de saúde e diversos agentes no circuito, quer privados, quer públicos. Há um tema que é absolutamente transformacional que tem a ver com a interoperabilidade entre estes diferentes agentes. O único elo que existe é o cidadão. Se o centro da nossa actividade for as pessoas, conseguimos ligar todos estes agentes – estou a falar de hospitais, centros de saúde, farmácias, laboratórios de análises clínicas, etc. – como sendo prestadores de cuidados, mas que têm a ligação e a necessidade de partilhar informação entre si para prestar melhores cuidados à população. A interoperabilidade entre os agentes do circuito é um tema essencial para a garantia da melhoria dos cuidados de saúde às pessoas.

Está a ser devidamente acautelado?
Neste momento, o que existe é um trabalho muito dedicado quer por parte do sector público, quer dos operadores privados, no sentido de poderem ter canais de partilha de informação para colocar os cidadãos no centro do sistema de saúde. Existe ainda um longo caminho para fazer, mas os decisores estão convencidos de que esse é, efectivamente, o caminho.

Que tendências nesta área podem consolidar-se em 2019?
A grande tendência é simples e tem a ver com garantir que as pessoas são cada vez mais responsáveis pela sua saúde. Temos de olhar para as pessoas não só nos seus estados de doença, mas definir um conceito de patient journey. Na saúde, temos de acompanhar, as pessoas desde que nascem até que morrem e a grande tendência é a capacitação e responsabilização das pessoas e olhar para a sua saúde de uma forma holística e não só em estados de doença. Se pensarmos bem, hoje, não estamos a falar de sistema de saúde, mas de sistema de doença. Não estamos a tratar da saúde das pessoas. Se queremos realmente ter um sistema de saúde, temos de garantir que as pessoas têm condições para prolongar ao máximo a sua condição de saúde e a grande tendência é colocar o cidadão no centro da actividade do sistema de saúde