Entre os dias 20 e 22 de Julho, a cidade de Amarante recebe, pelo terceiro ano consecutivo, o Festival Mimo. Em 2017, 60 mil pessoas participaram do evento, trazendo um impacto na economia local superior a 1,24 milhões de euros. Para a edição deste ano, esperam-se entre 80 mil a 100 mil festivaleiros. André Costa Magalhães, vereador responsável pelos pelouros do Empreendedorismo e Inovação, Promoção do Desenvolvimento Económico, Turismo, Juventude, revela à Smart Cities como o Mimo tem levado a identidade de Amarante além-fronteiras.

Depois do sucesso das duas edições, que relação se criou entre o Mimo e Amarante?

O Mimo é um festival com muitas valências. Primeiro, é uma montra e uma excelente acção promocional de Amarante naquilo que é a sua característica identitária mais forte, que é a riqueza cultural que o concelho e a região acarretam. O Mimo usa a própria cidade como palco, acontece num conjunto de palcos que estão espalhados pela cidade, numa óptica de valorização e casamento harmonioso com o património arquitectónico que a cidade tem para oferecer. Isso faz com que todas as pessoas que nos visitam tenham uma imersão na cultura amarantina, mesmo estando a assistir a concertos de artistas de todo o mundo, numa harmonia com a nossa cultura.

 Que impactos querem alcançar ao receber este festival?

O primeiro grande efeito que temos por via do Mimo é uma perspectiva de promoção, quer pelos visitantes, quer pela difusão mediática que alcança milhares de pessoas. Os estudos apontam-nos para um retorno dessa visibilidade muito elevado. Uma percentagem muito significativa das pessoas que vem ao Mimo vem a Amarante pela primeira vez, o que, por si só, é um ponto de atracção, e que tencionam visitar novamente. Há uma questão de afirmação, de dar a conhecer e de mostrar Amarante na sua riqueza cultural e que para nós é importante. O segundo objectivo é numa perspectiva de impacto económico directo através do comércio local, restauração, hotelaria, que os estudos apontam durante três dias é muito significativo. O último objectivo é fazer uma boa utilização daquilo que é a criatividade como um elemento fundamental na estratégia de desenvolvimento regional e local. Amarante, sendo também parte da Rede de Cidades Criativas da UNESCO, tem esse compromisso de fazer com que o factor humano da criatividade seja estimulado, para ser também um elemento de diferenciação e de desenvolvimento da própria cidade.

Como é que o evento integra a identidade amarantina?

O Mimo tem uma produção que faz o cruzamento entre a parte de curadoria artística e também de entretenimento, entre o que é local e o que vem de fora. Cada vez mais, o nosso foco é o de aumentar a presença da nossa identidade cultural. Ou seja, aumentar a presença dos nossos produtos tradicionais nos espaços gastronómicos, fazer percursos que permitam ao visitantes do Mimo sair das zonas de espectáculo e visitar outros pontos de interesse. Em 2017, fizemos a iniciativa “Mimo a minha cidade”, um cruzamento entre a temática do Mimo e da criatividade com o comércio local. Há também o elemento arquitectónico – todos os espaços do Mimo são elementos patrimoniais arquitectónicos relevantes. Temos concertos nas igrejas São Gonçalo e S. Pedro, concertos e iniciativas no Museu Amadeo de Souza-Cardoso; o palco principal fica junto à zona ribeirinha de excelência, dando ênfase à relação ao rio e a ter a ponte como pano de fundo... É um espectáculo de músicas do mundo, mas que, em varias dimensões, quer pelo espaço onde ocorre, quer pelas sinergias criadas com os produtos locais, quer por haver iniciativas que fazem com que o visitante do Mimo, acabe por se envolver com a cidade de outra forma, acaba por beber muito da nossa história.

"Definimos que a estratégia, como um todo, deve ter uma forte base comunitária. Por defeito, as forças vivas do concelho, quer do centro da cidade, quer da periferia ou zonas mais rurais, devem ser envolvidas na discussão e planeamento da estratégia e ao máximo na execução dos vários projectos".

Para além do Mimo, existe um ecossistema de criatividade na cidade?

O Mimo acaba por ser o festival mais conhecido, mas enquadra-se numa estratégia de desenvolvimento por via da criatividade que tem uma valorização da cultura ao longo de todo o ano. A época de Verão é muito mais rica em termos culturais, mas Amarante oferece hoje aos moradores e visitantes uma oferta cultural muito diversificada, desde festivais, exposições, concertos. A parte musical é uma grande aposta, daí sermos Cidade da Música, mas passa pelas artes plásticas, literatura, cinema, e que está encaixada na filosofia de que a cultura não é somente entretenimento, lazer da população. É um elemento de diferenciação e que potencia o próprio desenvolvimento económico social do concelho. Podemos orgulhosamente dizer que, hoje, existe em Amarante um ecossistema de agentes culturais, desde associações a empresas, que encontra a sua sede, espaços de trabalho privilegiados, mas que, a partir daqui, consegue catapultar para o resto do mundo. A cultura tem esta diversidade, multifacetas que não se esgotam no prazer que pode gerar, mas também no impacto e desenvolvimento que pode fundamentar. Alinhado nessa estratégia, o Mimo foi uma oportunidade. Veio para Amarante como processo de internacionalização do Brasil e houve mais do que uma cidade que teve interesse em recebê-lo, e, depois de vários meses, Amarante foi a escolhida.

Como é que as pessoas que estão nas zonas mais rurais do concelho beneficiam desta estratégia?

Definimos que a estratégia, como um todo, deve ter uma forte base comunitária. Por defeito, as forças vivas do concelho, quer do centro da cidade, quer da periferia ou zonas mais rurais, devem ser envolvidas na discussão e planeamento da estratégia e ao máximo na execução dos vários projectos. Temos mais festivais, como o Festival Internacional da Guitarra, o HáFest, todos têm forte ligação às forças vivas do concelho e a sua realização vai ao encontro dos objectivos que esta comunidade define. Têm uma base comunitária – o HáFest envolve mais de dez entidades do concelho e cada uma quase que assume a responsabilidade de organizar a sua parte, e, ao fazer isso, asseguramos os processos de descentralização. Alguns desses eventos acontecem nas zonas menos comuns, ora da cidade, ora do concelho, envolvem organizações menos conhecidas, mas que tem know-how e capital humano muito rico em áreas muito especificas e que nos permite valorizar essas temáticas. A criatividade é importante, mas não é apenas definida pelo município, ela faz parte de uma estratégia colaborativa, discutida e planeada em conjunto, na qual os recursos são distribuídos e que existe parte na tomada de decisão. À medida que os projectos são desenvolvidos, consegue-se enquadrar aquilo que é descentralização, base comunitária, valorização do que é local, e, cada vez mais, sentimos que isto é gradual. Estes objectivos vão entrando cada vez mais na ordem do dia e num processo que o próprio concelho torna como natural. Por exemplo, se não estamos a usar um local emblemático do centro da cidade para um evento, as pessoas podem achar estranho mas percebem que faz parte de uma decisão sensata e que devemos defender.

O que é preciso fazer para receber um festival destes?

Antes de mais, muita coordenação com os vários agentes do território e não só do concelho. O Mimo tem impacto em toda a região. Com tantas pessoas, o alojamento é francamente diminuto em Amarante e o impacto vai até ao Porto, Braga ou Guimarães. É preciso coordenação ao nível dos serviços básicos, restauração, hotelaria, mobilidade e segurança – existe um trabalho de fundo que é feito nesta matéria para assegurar que não existem estrangulamentos e pontos críticos que possam retirar a satisfação das pessoas ou negligenciar a segurança. Há muito trabalho de base, muitas vezes, até capacitar. Isso aconteceu com o Mimo na restauração, que precisava de adaptações ao nível da comunicação e preparação que tinham, porque não é a mesma coisa ter um bom fim-de-semana ou outro em que temos 60 mil pessoas e é preciso trabalhar até às 4/5 da manhã. Temos de ter uma boa capacidade de comunicação com o festivaleiro, para que saiba onde pode encontrar o que precisa. No caso do Mimo, é um festival inclusivo e considerado para famílias, no ano passado não houve um único incidente relacionado com excesso de álcool ou desacatos, isto acontece porque o próprio festival transmite esta harmonia e respeito pela cultura e que faz com que todos os detalhes sejam pensados e todos possam participar. Isto já chama um tipo de público que se identifica e é fundamental que apesar da complexidade e dimensão, as coisas possam ser harmoniosas e não existir incidentes. Daí também a percepção de valor que a população tem do festival, que é grande. Há muita actividade em três dias, é verdade, há muito impacto económico, mas de uma forma pacifica e positiva.

E como se evita que a capacidade de carga não seja ultrapassada?

A capacidade de carga de Amarante já foi ultrapassada largamente [risos], por isso, o que fazemos é a articulação com os agentes regionais. Conseguimos aumentar o espaço das actividades, para diluir as pessoas pelos diferentes palcos, mas, depois, nos serviços de apoio temos de articular com todo o território – alojamento, tudo a ter impacto num raio de 50 ou 60 km. No que diz respeito ao impacto económico directo, o festival pode não trazer muito mais para Amarante, apesar de trazer ao nível da promoção e visibilidade, mas para a região poderá ter. E temos de continuar a almejar esse objectivo de ter ainda mais pessoas.

Qual o investimento feito pela autarquia no Mimo?

O município é um dos financiadores do festival, pagando à própria produção do evento. Depois o município tem de fazer investimentos na cidade ao nível logístico e dos preparativos que vão para além daquela que é a produção. Este ano, está estimado que ultrapasse os 300 mil euros de investimento directo e outros indirectos realizados pelo município, mas estamos a falar de um festival que tem um orçamento global que superioriza 1 milhão de euros, portanto, somos uma parte. E somos um parceiro quase co-organizador do festival, na medida em que todas as decisões estratégicas, não em termos de curadoria, são discutidas connosco. Participamos na parte mais estrutural do evento.