Quão sério é o compromisso dos municípios portugueses com a bicicleta? Numa altura em que a promoção do modo ciclável tem vindo a ganhar destaque nas cidades portuguesas, não existe, ainda, um instrumento capaz de avaliar objectivamente a adopção de políticas que promovam este meio de transporte. É precisamente isso que David Vale quer mudar. O docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa apresentou, no passado dia 22 de Março, durante a conferência “Mudar a cultura da bicicleta”, o Bicycle Friendly Index, um índice que quer deixar as cidades a competir entre si, para fomentar a adopção de políticas amigas da bicicleta.

Nas palavras deste professor universitário, que é também coordenador do projecto Dar a Volta, o Bicycle Friendly Index português visa saber “o que é que as câmaras estão a fazer” para promover a bicicleta enquanto meio de transporte, avaliando não só a “ciclabilidade” - o nível de condições para as deslocações em bicicleta - de uma cidade, mas também o compromisso político da sua autarquia. Este índice é ainda um trabalho em desenvolvimento, não está fechado, mas o objectivo é arrancar já este ano: “o desafio é fazer isto em 2017, 2018, ver como isto está a evoluir”, para mostrar a realidade no terreno, mas também o potencial inexplorado, numa tentativa de orientar políticas para a promoção de uma mobilidade sustentável.

David Vale inspirou-se em metodologias de análise e índices, já existentes, que classificam a “ciclabilidade” dos territórios urbanos, como são o Bike Score e o Copenhagenize Index. Este último é um índice que, desde 2011 e a cada dois anos, classifica cidades de todo o mundo de acordo com a infra-estrutura ciclável existente e com o compromisso político assumido. Este ranking é elaborado pela Copenhagenize Design Company, empresa dinamarquesa dedicada ao planeamento de infra-estrutura ciclável, e na sua última edição, em 2015, classificou 122 cidades de todo o mundo, sendo que no topo da tabela surgem os ‘suspeitos do costume’, como Copenhaga e Amesterdão, assim como alguns casos que podem surpreender os mais incautos na matéria, como Sevilha, Buenos Aires ou Dublin. É um pouco isto que o especialista português procura fazer, mas a nível nacional. E já identificou nove elementos essenciais para a elaboração do índice português: a rede de ciclovias; a disponibilização de sistemas de partilha de bicicletas; a existência de outro tipo de infra-estruturas de apoio, como estacionamento para velocípedes; o perfil topográfico do território analisado; a repartição modal; o rácio de género; medidas de acalmia de tráfego implementadas; os usos do solo; e a despesa do município com infra-estruturas e iniciativas ligadas ao uso da bicicleta enquanto meio de transporte. No final, o objectivo é “avaliar se um determinado território é, ou não, amigo da bicicleta”.