Quando falamos em vilas ou cidades inteligentes, pensamos logo em soluções inovadoras para problemas aparentemente simples. Desde as (agora) comuns apps até ao Big Data, passando também pelo Blockchain e prosseguindo por toda uma panóplia de ferramentas e tecnologias, este foi um salto enorme. Mas será que, neste salto, não perdemos algo de importante? É cada vez mais difícil estar num ambiente, formal ou informal, livre de smartphones e/ou tablets e cada vez mais incomum estar num ambiente que inclua lápis e blocos de notas. E até nos encontros de amigos ou nas reuniões mais informais, na esplanada de um café ou restaurante, é cada vez mais comum centrarmos a maior parte da nossa atenção num mero ecrã, permanecendo cada vez menos tempo a investir no que, além de básico, é o mais importante: o ver, o sentir, o cheirar e o desfrutar do que nos rodeia. Distraímo-nos com algo que não é mais do que um meio para chegarmos a um fim.

Esta distracção tem tido consequências negativas na forma de planearmos o território e as nossas cidades, daí vermos coisas sem sentido um pouco por todo o lado. O sair do escritório é agora acessório, quando, afinal, deveria ser fundamental. O relógio não pára... Confiamos cada vez mais no digital, esquecendo de que o digital está a jusante do presencial e que o primeiro serve para complementar o segundo. Esquecemo-nos de que o presencial e o vivenciar são os factores que trazem consigo o fundamental, ou seja, a especificidade do lugar e as emoções associadas, as quais são únicas e intransmissíveis.

"Experimentem, num destes fins-de-semana, deixar tudo o que é digital em casa, levando apenas convosco um bloco de papel e um lápis. Apontem o que vão vendo, cheirando e sentindo. Sentem-se numa praça central e fiquem por ali uma ou duas horas. Vejam os padrões que se repetem e, depois, digam como correu...".

Na hora de planear, são estes os factores que distinguem quem “mergulhou” no território e quem viu o território a partir de um ecrã, o qual não transmite emoção e sentimentos de um lugar não vivenciado pelo indivíduo. E sim, há coisas que um ecrã não consegue transmitir. Quem, como eu, já viu uma aurora boreal ao vivo sabe do que falo... É um exemplo extremo, mas ilustrativo da diferença do sentir ou não um lugar ou um território. Experimentem, num destes fins-de-semana, deixar tudo o que é digital em casa, levando apenas convosco um bloco de papel e um lápis. Apontem o que vão vendo, cheirando e sentindo. Sentem-se numa praça central e fiquem por ali uma ou duas horas. Vejam os padrões que se repetem e, depois, digam como correu...

Voltemos aos tais problemas simples, que referi no início. Há soluções complexas que, nalguns casos não vingam, e porquê? Parte deve-se a este endeusamento do digital e ao menosprezar de algo tão simples como andar a pé, ver, ouvir e sentir tudo aquilo que nos rodeia. Pegando num exemplo simples: já pensaram se os projectistas de algumas ciclovias serão, ao menos, utilizadores de bicicleta e se conhecerão minimamente os territórios nos quais estão a projectar? Já questionaram se, por exemplo, um arquitecto costuma subir ou descer um ou dois andares de um prédio pelas escadas ou se vai de elevador? São perguntas simples para questões complexas, mas que, contudo, teimam em não ser respondidas pelas ferramentas e tecnologias, que, por vezes e cegamente, aplicamos, só porque nos dizem que são boas ou que estão na moda.

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.