#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

Não é de hoje que se ouve falar das mudanças climáticas e se tenta prever suas consequências. Desde que o homem começou a habitar o planeta, a sua presença é sentida por todas as formas de vida e isto não é um exagero. O ser humano é uma espécie de animal com uma característica em especial que o difere das demais: sua incrível capacidade de pensar e raciocinar. Essa mesma capacidade levou-o a descobrir, inventar e reinventar diversas maneiras de viver em sociedade e é neste aspeto que o meio ambiente começa a sentir mais drasticamente a existência dessa “vida inteligente”.

A busca por uma melhor qualidade de vida e pelo aumento do poder aquisitivo foram – e ainda são – dois dos grandes norteadores na evolução do quotidiano. As formas de se alcançar isto levaram a uma série de desequilíbrios ambientais que culminou na escassez de recursos naturais, como, por exemplo, a água. Ao longo das últimas décadas, sofremos com as consequências do consumismo desenfreado e vimo-nos obrigados a conviver com situações que, antes, eram impensáveis. As alterações climáticas são sentidas e vividas em todo o mundo e dificilmente serão revertidas, resta saber se estamos preparados para elas e basta uma olhada rápida em notícias dos últimos anos para saber que a resposta é “não”.

 

"Prevenir é muito mais barato do que remediar, não só em termos monetários, o que, por si só, já seria um ótimo motivo para se tomar decisões neste sentido, mas também por envolver vidas que são afetadas pelo acesso a este recurso fundamental [água]".

No Brasil, entre os anos de 2014 e 2016, o estado de São Paulo viu a sua tão famosa produtividade económica ser colocada em risco devido à seca que atingiu um dos mais importantes sistemas de abastecimento de água da região, o sistema Cantareira. Mais de sete milhões de pessoas viram-se obrigadas a enfrentar um racionamento até que o período de chuvas chegasse e o nível dos reservatórios subisse. Em 2017, foi a vez de Brasília, capital do país, enfrentar uma grave crise hídrica. Com as precipitações abaixo do previsto para o período chuvoso, as barragens do Descoberto e de Santa Maria chegaram aos seus limites, obrigando o governo brasileiro a implantar o racionamento e pedir auxílio financeiro para a construção emergencial de uma estrutura para captação de água em local alternativo. Mais de 1,5 milhão de pessoas foram afetadas.

Já em Portugal, muito recentemente, o país sofreu com uma situação de seca extrema que também obrigou o governo a considerar medidas excepcionais para tentar diminuir os prejuízos de agricultores e demais habitantes. As altas temperaturas aliadas à falta de chuvas causaram danos irreparáveis a quem dependia das lavouras para sobreviver. Hoje, comemoram-se as precipitações acima do normal que ocorreram por todo o mês de março e que fizeram subir os níveis de água das albufeiras, mas, ainda assim, é uma situação que inspira vigilância, precaução e cuidados.

Muitos são os estudos que tentam de alguma forma estimar a constância das chuvas no planeta, mas, mais do que “torcer” para que elas venham no tempo e quantidade certos, é preciso pensar em como enfrentar esses períodos de mudanças que parecem não ser tão previsíveis. As cidades precisam adaptar-se para o excesso, mas principalmente, para a falta de água. É necessário realizar ações de sensibilização para o uso racional dos recursos hídricos e parar de pensar que a água é infinita.

Prevenir é muito mais barato do que remediar, não só em termos monetários, o que, por si só, já seria um ótimo motivo para se tomar decisões neste sentido, mas também por envolver vidas que são afetadas pelo acesso a este recurso fundamental. Que sigamos este caminho, mostrando que “vida inteligente” não é só uma maneira de falar.