O crescimento populacional aliado à falta de moradias, principalmente para pessoas em situação económica mais desfavorecida e devido ao aumento da urbanização, é um dos grandes desafios do século XXI. Estima-se que, no Brasil, o déficit habitacional gire em torno de 5,5 milhões a 6 milhões de domicílios, segundo dados preliminares da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2015. A tendência é que a insuficiência continue nos próximos anos, também devido à recessão económica e consequente diminuição do número de construções.

Uma das soluções com grande possibilidade de ser implementada, após estudos, é o investimento em novas formas de edificação. Não é apenas no Brasil que os dados apontam para dificuldades alocação da população de baixa renda. O problema atinge os principais centros urbanos em todo o mundo, apesar de ser mais recorrente e apresentar menos avanços em países subdesenvolvidos, onde a proporção do déficit é muito maior do que o observado na Europa. Existe uma necessidade de pensar em criar moradias economicamente viáveis e sustentáveis, para, assim, não só diminuir o déficit, mas também preparar as habitações para o futuro.

"Procurar por uma solução para resolver o déficit de moradias principalmente entre a camada da sociedade com menos recursos financeiros sempre foi uma questão complexa. É difícil aliar qualidade construtiva e a custo baixo para que a aquisição do imóvel seja acessível".

O conceito de sustentabilidade começou a ser propagado em 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano realizada em Estocolmo, Suécia. Naquela época, ainda se acreditava que o meio ambiente era uma fonte inesgotável. Hoje, as mudanças climáticas e a iminente falta de água em alguns locais do globo, como na Cidade do Cabo, na África do Sul, que deve ficar sem abastecimento por causa da seca, provam que não.

Se o tema já está em pauta desde a década de 1970, por que até hoje os métodos construtivos, com o uso de tijolos e betão, continuam iguais? Quase 50 anos do início desse debate sobre a possibilidade de viver num mundo mais sustentável, muitas coisas já melhoraram, mas uma real mudança poderia assentar em diminuir os resíduos de obras e a quantidade de gases poluentes emitidos à atmosfera com a fabricação de tijolos e betão.

O grande desafio parece ser pensar numa solução para ambos problemas: encontrar um método construtivo que seja economicamente viável, rápido e que possibilite uma obra limpa e sustentável. Uma saída que vem crescendo de forma lenta, mas significativa, é a edificação de residências com contentores.

Logo após uma forte crise nos Estados Unidos, devido a importações de mercadorias vindas da Ásia, ocorreu um acúmulo de contentores nos portos. Como seria mais caro enviá-los de volta ao país de origem, eles ficaram acumulados nos portos dos destinos finais. Com isso, e de forma informal, esses contentores começaram a ser usados como moradias temporárias.

Nos países europeus, essa forma de moradia inovadora mostrou uma eficiência significativa em questão de qualidade e bem-estar. Um bom isolamento térmico torna qualquer residência, tenha ela paredes feitas de contentores ou tijolos, eficiente. Algumas pessoas ainda manifestam recusa ou dúvidas quanto esse tipo de moradia, pois questionam o frio ou calor que possam passar. Se na França e na Holanda, onde as temperaturas são negativas no inverno e podem ultrapassar os 30º C no verão, se constrói com contentores, o método tende a funcionar de maneira ainda mais efetiva em países tropicais ou em locais com invernos e verões não tão rigorosos.

Procurar por uma solução para resolver o déficit de moradias principalmente entre a camada da sociedade com menos recursos financeiros sempre foi uma questão complexa. É difícil aliar qualidade construtiva e a custo baixo para que a aquisição do imóvel seja acessível. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 11 milhões de pessoas vivem em circunstâncias precárias. A população do país é de quase 208 milhões. Em Portugal, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, quase 26 mil famílias vivem em condições habitacionais precárias, segundo o Levantamento Nacional das Necessidades de Realojamento Habitacional.

Ainda existe uma certa rejeição em transformar um resíduo marítimo numa casa, mas já se  caminha na direção de uma maior aceitação à medida que exemplos de moradias com contentores começam a aparecer com maior visibilidade. Construir com contentores é uma possibilidade para resolver carências atuais e preparar a sociedade para o futuro.

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#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.