Se não conhece esta palavra, então, veja a sua definição aqui. Muito provavelmente já passou por um momento de serendipidade e não o registou.

No último episódio destas crónicas sobre Cidade Inteligentes, Cidades Complexas, escrevi sobre aleatoriedade e incerteza fundamental. Sobre a necessidade de aceitar esta condição inerente a tudo o que são sistemas vivos.  Desta vez, escrevo sobre o aspecto mais promissor da aleatoriedade: a serendipidade ou a sagacidade acidental. Convido, já agora, a descobrirem a origem da palavra “serendipidade”.

Nós, humanos, temos uma necessidade muito particular de criar histórias que explicam, em retrospectiva, a sequência de eventos que nos trouxe até ao momento presente. Ansiamos pela busca de significado para a nossa vida e ligamos os pontos com uma narrativa que parece ter sido escrita numa cabana nas montanhas em frente a uma lareira crepitante.

Na verdade, os momentos mais marcantes das nossas vidas são aqueles que não são planeados de todo e surgem, aparentemente, do nada: uma nova oportunidade de trabalho, uma nova amizade, um novo amor, uma ideia inovadora, uma conversa reveladora,... a lista poderia continuar. Digo aparentemente pois, na verdade, estes momentos resultam do todo. Aparecem da aleatoriedade e da complexidade das relações e das pessoas com quem nos cruzamos em determinados momentos. Resultam de nos permitirmos que algum “caos” entre na nossa vida.

"Nesta nova época, que alguns autores já chamam de “urbanoceno”, as cidades podem ser encaradas como motores de mudança e evolução social. Neste contexto, a inteligência das cidades não pode abolir a serendipidade. A inteligência e a vida em geral são fruto da serendipidade; fruto das interacções aleatórias, fugazes e fortuitas que dão invariavelmente origem aos grandes progressos culturais, sociais e do indivíduo".

Por oposição, imaginemos viver uma vida planeada ao segundo, na qual todas as interacções são mapeadas, temporizadas, estruturadas, e rotinadas. Onde não há lugar para o encontro fortuito.  Esta é a vida que muitos de nós vivem nas cidades modernas. Uma vida regulada por horários artificiais, por redes sociais pequenas e homogéneas que contribuem para o nosso viés confirmatório. Uma vida que abomina o caos e, consequentemente, a criatividade, inovação e, fundamentalmente, a essência de se ser humano.

Nesta nova época, que alguns autores já chamam de “urbanoceno”, as cidades podem ser encaradas como motores de mudança e evolução social. Neste contexto, a inteligência das cidades não pode abolir a serendipidade. A inteligência e a vida em geral são fruto da serendipidade; fruto das interacções aleatórias, fugazes e fortuitas que dão invariavelmente origem aos grandes progressos culturais, sociais e do indivíduo. Quero acreditar que é esse explorar do mar infinito de interacções possíveis que dá sentido à vida.

A minha cidade inteligente é aquela que reconhece e promove o valor da serendipidade através de plataforma flexíveis de mudança social. Essas plataformas são os pontos de encontro, de conversa e discussão que criam, antes de mais, oportunidades de autodescoberta e de evolução das “gentes urbanas”.

Um bom ano de 2018 repleto de descobertas acidentais!

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.