As cidades existem há milhares de anos, sendo que a cidade permanentemente habitada desde a sua fundação (em 7000 a.C.) até aos dias de hoje é Jericó, no Médio Oriente. A bicicleta, por sua vez, nasceu há 200 anos, a 12 de Junho de 1817, numa invenção de Karl Drais que pretendia dar resposta a um ano sem verão, que levou à escassez de alimentos e de animais que suportassem as colheitas em toda a Europa. A necessidade levou à invenção de algo que se transformou num veículo de locomoção. O automóvel surge apenas em 1885, há cerca de 130 anos. Ora, isto leva-nos a afirmar que as cidades foram construídas para as pessoas e só no século XX foram readaptadas tendo como figura central o automóvel.

No entanto, são muitos os problemas que advêm desta política adotada durante o século XX. Se os problemas ambientais poderão ser aparentemente ultrapassados com a motorização elétrica (digo aparentemente porque há sempre a questão da origem da produção de energia elétrica e da reciclagem das baterias) e a segurança rodoviária aparentemente será ultrapassada com a chegada de veículos autónomos, continuamos com outros problemas a nível social, a nível económico e, sobretudo, a nível de ocupação de espaço público.

"Aquilo que as cidades estão hoje a fazer é uma forte aposta no Transporte Público, criando sistemas de transporte competitivos, melhorando as ofertas, o serviço, criando canais dedicados de circulação e inovando no conceito de transporte público, utilizando para isso a bicicleta e o próprio carro, criando sistemas de partilha desses veículos".

A nível social, porque, para além das desigualdades criadas, há uma rutura nas ligações entre os utilizadores da cidade. As pessoas vão dentro dos automóveis, a maior parte das vezes sozinhas, sem comunicar com outros indivíduos.

A nível económico porque um o automóvel representa, para a cidade, um custo de 0,15 € por cada quilómetro percorrido. O comércio local, de proximidade, não é acessível a partir de um automóvel, o congestionamento continuará a existir, levando também isso a um custo económico, e o aumento do sedentarismo tem como consequência doenças que têm impacto na nossa economia.

No entanto, o grande problema é a ocupação do espaço público por um objeto privado. Se tivermos em conta que um automóvel está parado durante 90% do tempo, isso significa que, durante 23 horas, o automóvel é apenas um objeto parado a ocupar espaço. Se este espaço ocupado for público, então talvez seja necessário repensar essa situação, porque, durante 90% do tempo, esse espaço é utilizado única e exclusivamente por um veículo privado. Dá que pensar, não dá?

Aquilo que as cidades estão hoje a fazer é uma forte aposta no Transporte Público, criando sistemas de transporte competitivos, melhorando as ofertas, o serviço, criando canais dedicados de circulação e inovando no conceito de transporte público, utilizando para isso a bicicleta e o próprio carro, criando sistemas de partilha desses veículos.

Os sistemas de partilha, conhecidos como Bike Sharing e Car Sharing, podem ser considerados parte do sistema de transporte público, uma vez que o conceito de partilha pretende que o mesmo veículo possa, durante o mesmo dia, ser utilizado por diversas pessoas, reduzindo assim a necessidade de utilização de um veículo próprio, com todas as vantagens que isso traz não só para o indivíduo que o utiliza, mas para a cidade em que estes sistemas são introduzidos.

Com isto, passa a ser possível para um utilizador da cidade optar entre o transporte público de massa (BUS, LRT, BRT, comboio), uma bicicleta partilhada ou mesmo um carro partilhado. Hoje, as cidades têm de se preparar para esta realidade, sendo para isso necessário criar as infraestruturas necessárias que garantam a segurança e a possibilidade de escolha.

No final de contas, o que vai mesmo interessar é que o indivíduo utilize, de forma inteligente, o modo de transporte mais adequado, mais eficiente, mais sustentável, para a viagem que vai realizar. Ou mesmo que utilize uma mistura de modos transporte que responda às suas necessidades.

As cidades terão menos automóveis, apenas os estritamente necessários, mais bicicletas a circular, mais pessoas a utilizar os transportes públicos, mais pessoas a andar a pé e, consequentemente, mais qualidade de vida.

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.