As cidades e aglomerações humanas estiveram ontem em destaque na conferência da ONU sobre as Alterações Climáticas, COP 22, que decorre até 18 de Novembro em Marraquexe, Marrocos. Poucos dias depois de conhecido o resultado das eleições norte-americanas, que deram a vitória a Donal Trump, negacionista em relação às alterações climáticas, o ambiente sentido no evento está ainda mais tenso, com o Dia das Cidades e Aglomerações Humanas a reforçar o potencial da acção local em relação à implementação, focada na resiliência e na construção da eficácia.

Num evento co-organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e pelo ICLEI - Local Governments for Sustainability (associação de governos locais em prol da sustentabilidade), a agenda deste Dia das Cidades e Aglomerações Humana contou com a apresentação de uma nova ferramenta de avaliação, que permitirá uma comunicação qualitativa harmonizada dos compromissos de adaptação, no âmbito do Pacto Global de Autarcas.Outro dos pontos altos foi também a apresentação dos resultados mais importantes do relatório Scoping sobre as iniciativas dos membros da Aliança de Liderança Financeira Climática das Cidades (CCFLA, na sigla em inglês), no que toca ao financiamento sub-nacional e local. O relatório confirma que a fase inicial do desenvolvimento de projectos é crucial para a elaboração de estratégias e projectos climáticos adequados e sublinha as abordagens de engenharia financeira que apoiam o desenvolvimento de estratégias climáticas urbanas em projectos de investimento urbano concretos, incluindo benefícios climáticos conexos e perspectivas de gestão do risco. Por fim, a marcar o dia de ontem, esteve também o anúncio da convocatória para a apresentação de candidaturas a cidade anfitriã da Conferência Científica Internacional sobre as Alterações Climáticas e Cidades, que terá lugar em 2018.

Neste evento, Laurence Tubiana (França) e Hakima El Haité (Marrocos), líderes em matéria de acção climática, definiram uma ordem de trabalhos pormenorizada para incentivar uma acção de cooperação entre governos, cidades, áreas de negócio, investidores e cidadãos, para reduzir rapidamente as emissões e ajudar as nações vulneráveis a adaptarem-se aos impactos climáticos e a construir a sua própria energia limpa, os seus futuros sustentáveis.

Cidades, vilas e regiões estão a ter um papel determinante na abordagem ao tema, nomeadamente através do cumprimento dos compromissos climáticos que têm assumido e do estabelecimento de parcerias a nível global. Paralelamente, são também as áreas urbanas as principais responsáveis pelas emissões globais relacionadas com a energia, representando cerca de 70% destas, e estão também entre as zonas mais afectadas pelas alterações climáticas. Segundo o Banco Mundial, a adaptação às alterações climáticas poderia custar entre 80 a 100 mil milhões de dólares americanos por ano, 80% dos quais têm de ser investidos em áreas urbanas.

“A entrada em vigor do Acordo de Paris é uma excelente notícia. Significa que, finalmente, podemos meter mãos à obra e implementar rapidamente os compromissos que contém”, referiu Gino Van Begin, secretário-geral do ICLEI. “As nações participantes na COP22 necessitam agora de mostrar a liderança, facultando um enquadramento sólido para apoiar as medidas e um quadro de referência eficaz para intensificar a acção contra as alterações climáticas e colmatar o fosso das emissões, antes que seja tarde de mais. A acção contra as alterações climáticas nas cidades, vilas e regiões será instrumental, assegurando que permanecemos no trilho de 2 °C, visando os 1,5 °C”, conclui.

“Um ano após a COP21, a excelente dinâmica de acção contra as alterações climáticas está agora a reforçar-se. Como todos nos apercebemos em Marraquexe, chegou a altura de começar a fazer o ponto da situação, em relação ao que foi conseguido no último ano. Para ser consistente com os objectivos a longo prazo, todos os intervenientes terão de trabalhar em conjunto, não apenas para atingir as metas nacionais das contribuições determinadas a nível nacional, mas também para ir mais longe e colmatar o fosso das emissões. Esta necessidade de urgência deve levar-nos a todos a acelerar os esforços imediatos e apresentar medidas ambiciosas. Devemos identificar as opções políticas concretas e as ferramentas que temos de mobilizar, a curto prazo. A questão é simples: o caminho para a consecução dos objectivos a longo prazo deve conduzir-nos a atingir um ponto culminante de emissões de gases com efeito de estufa, em 2020. Isto representa um desafio, ainda não chegámos lá. De acordo com as tendências actuais, em 2030, estaremos entre as 11 e as 14 GT acima dos valores traçados em Paris. O objectivo agora é reforçar todos os esforços e levá-los até ao próximo nível, para estar alinhados com os objectivos: permanecer abaixo dos 2 °C e, se possível, 1,5 °C, aumentar as capacidades de adaptação e resistência e reorientar os fluxos financeiros. É nossa responsabilidade, como líderes, estabelecer a ponte entre o mundo actual e o processo COP. Os líderes políticos de todo o mundo devem ouvir e inspirar-se pelas soluções ao nosso alcance”, deixaram em mensagem os especialistas Laurence Tubiana e Hakima El Haité.